Youtube pode ganhar classificação etária. Na boa? Bem feito

Omissão da plataforma pode resultar na pior ação possível: intervenção estatal.

Luide
Luide
24 de abril de 2018

A thumbnail é a capa de um vídeo no Youtube. É por ela que grande parte do público que se guia para decidir se consome ou não aquele conteúdo. Para conseguir chamar a atenção no meio dessa guerra, muitos youtubers começam a apelação através dela. Certo dia um canal com 10 milhões de inscritos estampava em sua thumbnail a seguinte cena: imagem de um homem enforcado, que supostamente havia cometido suicídio na floresta de Aokigahara (Japão). A montagem ainda colocava os dois apresentadores do canal “reagindo” àquela vida perdida.

Repetindo pra quem não entendeu a gravidade: um canal* com 10 milhões de inscritos estampava em seu vídeo a imagem de uma pessoa que cometeu suicídio. Esse tipo de desrespeito a assuntos sérios é algo frequente no Youtube. É comum que “influencers” façam vídeos debochando de pessoas em situações de rua, forcem situações constrangedoras com sua família e inclusive se mutilem diante das câmeras. Tudo isso exibido de forma livre e gratuita, sem controle algum, para milhões de pessoas.

Claro que um adulto pode escolher entre assistir ou não seu youtuber favorito arrancando um dente com o alicate, mas quando esse youtuber tem uma audiência formada majoritariamente por crianças temos um problema. Como pai e criador de conteúdo esse assunto me diz respeito duas vezes. Em primeiro lugar reforço a ideia que nós, pais, somos e devemos ser os principais responsáveis pelo que nossos filhos consomem em entretenimento. E isso não se limita apenas a internet, mas também TV, música, cinema e até brincadeiras. Porém é romantismo acreditar na vigilância perfeita e é óbvio que em algum momento não estaremos presentes para fiscalizar. A popularização dos celulares e fácil acesso a uma internet rápida permite que qualquer pessoa, em qualquer lugar, possa consumir todo tipo de conteúdo.

Inclusive na escola, na rua, no parquinho… Mas a questão é: a falta de vigilância dos pais não é desculpa para que conteúdo consumido por crianças seja feitos segundo a vontade de seu criador. Tirar toda a responsabilidade desses youtubers é burrice, é tratá-los com um privilégio que simplesmente não cabe. Qualquer creator sabe exatamente o público que o acompanha. No caso do Amigos do Fórum um simples acesso ao Google Analytics me permite saber exatamente quem lê esse site. Acompanhar os comentários e feedback também. Então um youtuber ignorar o forte público infantil que o acompanha é fingimento puro. Eles sabem, mas não se importam.

“How Do You Do, Fellow Kids?”

Imagem que resume o youtube brasileiro.

Uma criança de 7 anos morreu depois de participar do “desafio do desodorante”, algo que ela viu em algum canal. O caso gerou um alerta aos pais sobre se o Youtube ser um ambiente seguro para seus filhos. Já a plataforma parece não se importar com o que vem sendo publicado. Enquanto canais de ciência perdem monetização, pessoas que debocham de assuntos como suicídio e depressão aparecem na aba “Em Alta“, principal referência do que está sendo visto no site.

Era óbvio que em algum momento isso chamaria a atenção das autoridades. Os maiores canais do Brasil são para o púbico infantil. Adultos deitam e rolam para arrecadar o máximo de dinheiro possível às custas dessas crianças sem supervisão nenhuma. A pior coisa que poderia acontecer para o Youtube é o Estado intervir e criar regras, impor impostos. Quem trabalha de forma séria será o principal prejudicado, mas infelizmente, dado o retrospecto de omissão, esse parece o caminho natural: intervenção estatal.

Nessa quarta feira dia 25 de abril o debate sobre a classificação indicativa ser estendida ao Youtube retorna no Ministério da Justiça. Para o ministro da Justiça, Torquato Jardim, o debate deve acontecer do ponto de vista jurídico com destaque para duas cláusulas da Constituição Federal: “A que diz que é livre a manifestação do pensamento, vedado o anonimato, e a que veda a censura”, disse o ministro.

O resultado pode ser que o Youtube esteja sujeito as mesmas regras que a televisão e cinema. É cedo para dizer o impacto dessa lei, mas uma coisa é certa: diante de tantos casos absurdos, eu acho é pouco.

*a thumbnail foi alterada, provavelmente devido as críticas

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