Years and Years é a série dos derrotados

"Como foi que a gente perdeu de novo as eleições?".

Luide
Luide
16 de setembro de 2019

Quando disseram que Years and Years era uma espécie de “Black Mirror do mundo real” a vontade que tinha de assistir a nova minissérie da HBO foi do zero pro negativo. Foi-se o tempo que o selo “parece Black Mirror” inspirava alguma confiança, hoje está mais associado a algo decadente e sem criatividade. Mas enfim. A empolgação da timeline das redes sociais ainda me perseguia, como se eu estivesse perdendo algo extremamente imperdível. Então nada melhor que um final de semana de puro tédio para tirar todas as dúvidas sobre Years and Years.

E veja bem, se trata de uma excelente ideia e funciona muito bem. Para um tipo muito específico de público: aquele que há anos vem batendo cabeça e vive confuso sobre os rumos políticos do mundo. Years and Years é o programa perfeito dos derrotados, que se sentem meio que vingados ao verem os novos ícones políticos que eles tanto odeiam sendo retratados como personagens burros ou maléficos.

O que acontece na série é basicamente o que vem acontecendo no mundo ocidental na última década: uma forte guinada conservadora, partidos de extrema direita crescendo lentamente (alguns já chegando ao poder), a democracia se tornando mais um delírio romântico do que qualquer outra coisa, crises, desemprego e claro, a classe média percebendo que não é parte da elite só porque consegue financiar um carro de 100 mil reais.

De todo modo, Years and Years é bem executada. A narrativa que avança ano após ano de um episódio para o outro, mostra como as coisas não mudam de forma drástica, mas levam um tempo, cozinhando, cozinhando até que… bom, está tudo mundo se perguntando “como foi que deixamos isso acontecer?“. Hoje grande parte da oposição se pergunta como Jair Bolsonaro chegou a presidência. Muitos acreditam que foram as fake news ou o anti-petismo, ou seja, ninguém credita boa parte do sucesso do atual presidente a ele mesmo. É como se todas as coisas do mundo influenciasse a sua eleição, menos sua própria figura.

Me lembro que em 2014 brinquei com um amigo paranaense que fazia campanha para Bolsonaro, que concorria pela enésima vez a deputado federal pelo Rio. Ele disse “um dia terei o prazer de votar nele“. Assim como esse amigo, milhares de pessoas cultivavam essa ideia e ao longo dos anos foram alimentados pela presença do então deputado, que escolhia justamente programas mais populares para “dizer o que pensa” sem freios. Era melhor a Luciana Gimenez que o Luciano Hulk.

Claro, estou sendo o mais raso possível, porém Years and Years, que todo mundo fica de queixo caído pelo quanto ela retrata bem os acontecimentos recentes, mostra exatamente isso. Ninguém surge do nada dizendo “bandido bom é bandido morto” e consegue mais de 50 milhões de votos com notícia falsa em WhatsApp. Existe uma escalada. Existe uma série de fatores.

Acontece que no fim das contas Years and Years é só isso mesmo: uma choradeira pelo o que aconteceu. “A gente perdeu a eleição, e agora?“. Não da pra ficar sentado na cadeira postando que todo mundo que não votou no meu candidato é fascista ou brigando com todos os familiares porque eles não aceitam a mesma régua moral que a sua.

Se você quer uma lição de Years and Years é essa: nunca acredite que o pior já passou. O pior ainda nem sequer começou.

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