Westworld: o parque de diversões que expõe o atual estado das produções televisivas

Em seu segundo ano, Westworld abraço espetáculo movido por mistérios e mais mistérios.

Luide
Luide
27 de junho de 2018

Os minutos finais de The Passenger (S02E10) lembram o que Peter Jackson fez em O Retorno do Rei e seus sucessivos “finais” antes dos créditos. Mas enquanto no filme Jackson tentava transformar o épico em algo ainda mais épico, o episódio dirigido Frederick E.O. Toye é apenas mais uma tentativa frustrada da série em envolver o espectador em um labirinto forçado e sem peso dramático. A força condutora dos acontecimentos é uma provável “explosão de cabeça”, com direito a câmera lenta, música tensa e frases de efeito com os personagens olhando pro nada.

The Passenger é também um episódio que mais expõe o atual estado das produções televisivas e de como o público é levado a agir como gado viciado em mistérios, mas desde que esses mistérios sejam resolvidos na frente deles o tempo todo. É como se o esforço fosse compensado e as “teorias” tivessem respaldo. E Westworld realiza todos esses sonhos: fazer com que o espectador médio se sinta um gênio por ter previsto alguns acontecimentos.

Mais uma vez usando de linhas temporais diferentes para dar esse aspecto de estarmos diante de um quebra cabeça, Westworld abre mão daquilo que tinha de melhor para dar atenção a seus plot-twists e revelações que insistiam em acontecer a cada episódio. Enquanto na primeira temporada isso se fazia presente, o que chamava a atenção era a boa ficção científica usada para questionar ou simplesmente buscar uma reflexão sobre o que nos torna humanos. O que significa existir. Com isso Westworld utilizava do paralelo mais comum em histórias sci-fi: homem vs máquina.

Enquanto os humanos se portavam como seres sem sentimentos e escravos do prazer, as máquinas desenvolviam empatia e cultuavam a vida. Isso meio que se perde no segundo ano, sendo apenas as relações de pais/mães com seus filhos a única forma que a série encontrou para nos fazer lembrar disso: enquanto Delos e William vivem relações conturbadas com seus filhos, Maeve, por exemplo, luta desesperadamente pela sua filha. Primeiro para um resgate e preservação dessa memória e depois um sacrifício em uma cena que talvez seja a única realmente boa da personagem em toda temporada.

Sem esse elemento filosófico, Westworld partiu pro entretenimento objetivo: prender o espectador em um amaranhado de prováveis resoluções ou entendimentos, criando uma jornada em busca do “Vale” e colocando todos seus personagens atrás dele. O que tem no final do arco íris? Qual a recompensa? Todos precisam de algum motivo pra buscarem esse objetivo. A recompensa do espectador é se sentir motivado a seguir assistindo a série para ver se suas “teorias” estão certas.

Westworld trouxe pra ela mesma o conceito de parque e coloca um monte de adultos se divertindo nessa caçada aos mistérios. Porque drama mesmo, daqueles bem feitos, passou longe de fazer. A jornada dos seus aparentes protagonistas nesse segundo ano expõe esse problema. DoloresMaeve, Bernard e William pouco evoluíram e caíram em uma repetição absurda. Os personagens mais reagem do que agem. Quando Dolores diz a Bernard que sua intenção é a “destruição da humanidade” ficou claro o quão sem sentido Westworld se tornou. Enquanto no primeiro ano Dolores foi a grande protagonista da série com um arco tão bem estabelecido e desenvolvido, aqui a personagem se resume a fazer cara de birra e passou esses 10 episódios andando pra lá e pra cá e vomitando frases cafonas.

Mas ainda assim Westworld conseguiu entregar dois bons episódios que resgatam essa identidade sci-fiThe Riddle of the Sphinx (S0204) e Kiksuya (S02E08) são de longe os melhores momentos desse segundo ano. No primeiro temos Delos em um eterno Teste de Turing mostrando as ambições reais do parque. A ideia de que a mente humana não suportaria a vida eterna e que a morte é um caminho necessário trouxe um pouco de reflexão para a série que vinha de uma sequência de tiros e conversa fiada. Já Kiksuya, episódio dedicado a Akecheta, é uma grata surpresa e um exemplo de qual caminho Westworld deveria abraçar.

Infelizmente Westworld é mais uma série pra tuiteiro criar thread de teorias e BuzzFeed fazer post com “momentos que você não percebeu”. A série abraçou essa afetação contemporânea por mistérios divertidos, mas desde que tudo seja devidamente explicadinho na sua cara o tempo todo. Por que se você não puder se vangloriar no grupo do facebook dedicado a série que você desvendou o final, qual a graça em assistir, não é mesmo?

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