Watchmen: era impossível adaptar, até chegar nas mãos da pessoa certa

Damon Lindelof, a cultura pop te deve aplausos e abraços.

Luide
Luide
3 de dezembro de 2019

Quando o primeiro trailer de Watchmen foi divulgado, escrevi que nenhum outro nome me parecia mais correto para adaptar a obra de Alan Moore que Damon Lindelof. Ele havia acabado de encerrar de forma magistral The Leftovers, onde entregou uma das séries mais lindas e cheia de espírito da década. Além disso, ao longo das três temporadas, soube dosar mistério e revelações, criando no espectador um raro sentimento de satisfação: tem coisas que você não precisava saber, e Lindelof te convenceu disso.

Com Watchmen tinha tudo pra dar certo. E deu. Quer dizer, vendo dando: faltam apenas dois episódios para o encerramento da série, mas já podemos dizer que o trabalho feito por ele é de alto nível. Assustador de tão bom. E de fato: ninguém além de Damon Lindelof poderia fazer uma adaptação pra TV de um quadrinho tão complexo e difícil.

Snyder tentou refazer quadro a quadro. Alguns gostam (eu, por exemplo), mas a maioria dos fãs se sentem traídos. E é justamente por isso que ninguém deveria se preocupar com opinião de fã. Lindelof, por exemplo, não se importa. O que ele faz é simplesmente um exercício de criação, de extrapolação da obra, e faz isso com perfeição.

É tão bem construído que fica impossível não canonizar essa “sequência” dos quadrinhos: um mundo que lida com Dr. Manhattan como se fosse um deus (enquanto outros o consideram um genocida). Rorschachse tornando símbolo de supremacistas. Ozymandias recluso em em seus delírios. Tudo faz tanto sentido que chega a ser assustador. A loucura de Lindelof (um apaixonado por Twin Peaks, o que explica muita coisa) faz sentido nesse caos.

Agora, o que espanta em Watchmen é como a série não tem o menor medo. Rorschach, o personagem favorito da maioria dos fãs, ter como legado se tornar o símbolo de supremacistas brancos, é apenas uma entre várias decisões corajosas.

Pois sem dúvida alguma, a maior delas acontece no episódio This Extraordinary Being (S01E06), com a origem do Justiça Encapuzada e a revelação do seu passado. Tudo, absolutamente tudo nesse episódio, é tão bem escrito, que dizer que se trata do melhor momento da cultura pop em 2019 ainda é pouco.

Em um cena, por exemplo, na reunião dos Minutemen, quando o personagem tenta mostrar que os vilões reais são seres humanos “normais” e estão aqui, vivendo e sendo aceitos em sociedade, mas é interrompido por outro herói dizendo alguma besteira sobre raios solares, é tão sintomático sobre o que nós consumimos, que realmente parece ter sido escrito por ninguém menos que Alan Moore.

Mas não foi e é isso que deixa tudo ainda melhor.

Poucas vezes vi uma adaptação tão confiante em suas decisões. E assim como em The Leftovers, não faço a menor ideia de como tudo irá acabar, mas se existe algo que aprendi nos últimos anos acompanhando séries é: em Damon Lindelof eu confio.

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