Você sente falta de comer seu bife na ignorância?

A ignorância é o melhor tempero para a realidade

Luide
Luide
11 de outubro de 2016

Durante a segunda temporada de Mr. Robot, Sam Esmail acabou com o romantismo que rondava a série no que diz respeito a destruir o Sistema. Quando Elliot implodiu virtualmente a E-Corp, em seu íntimo, ele imaginou que estaria fazendo um favor as pessoas. Como mostrado lá no episódio piloto, o dinheiro se tornou o Sistema Operacional do mundo. Era preciso que alguém puxasse a tomada para que houvesse um despertar em massa. Mas não foi isso que aconteceu e as consequências se mostraram terríveis. Pessoas sem emprego, empresas falindo, gente na rua, apagões, caos total.

Sempre ficou claro em Mr. Robot essa proposta de debater, até certo ponto, o Mito da Caverna de Platão. Durante sua primeira consulta com a psiquiatra, Elliot da um discurso inflamado sobre o que lhe incomodava na sociedade. Ele sabe que estamos sedados, de mãos dadas, fingindo que somos felizes e realizados. Ofendemos uns aos outros com a desculpa de humor ou opinião, nos escondemos da realidade em filmes, livros ou observando a vida alheia através das redes sociais. O curioso é que esse discurso só aconteceu na mente de Elliot, ele sabia que não mudaria a maneira de pensar de ninguém com palavras, por isso resolveu agir.

Se existe um Sistema que afeta diretamente nossas ações, é impossível deixá-lo. Ninguém está livre do Estado, das leis, das autoridades, da publicidade, da religião, dos contratos sociais. De uma maneira ou de outra, sempre haverá um agente externo influenciando nossa maneira de pensar. Portanto, tentar se livrar de uma “Matrix” foi um erro que Elliot cometeu, e nós, talvez, cometemos diariamente.

A ideia de ser bem informado, saber mais que o vizinho, lhe trás alguma satisfação, não? Quando você olha para aquele político na televisão e diz “isso é mentira“, parece que existe algum poder invisível. O Sistema não pode te enganar. Mas será?

O personagem Cypher de Matrix é um dos mais instigantes do filme. Ao se deparar com a dura realidade, tudo que ele mais deseja é voltar a dormir no berço esplêndido da ignorância. No fundo ele sabe que sua jornada pela verdade, pela justiça, não trará resultado algum. Ele não se considera um mártir, alguém disposto a dar a vida para um bem maior. Ele pensa na satisfação imediada, no prazer do agora, por isso, sente ódio de Morpheus ter lhe tirado a benção da ignorância.

Às vezes você se irrita com “tudo que está aí“. Sente ódio. Briga com familiares, desfaz amizades, ofende pessoas quando passa da conta. Insere uma ideia de verdade na mente e luta por ela, contra tudo e contra todos, afinal, você consegue enxergar os códigos da Matrix como Neo assim o fez. Você sabe onde está o problema, sabe como arrumar, mas se sente como Cypher, inútil. Sem poder suficiente.

Talvez ele esteja certo. O verdadeiro sabor de um bife suculento vem da ignorância. Da ignorância de não saber como aquele animal foi abatido, como foram suas condições de vida, quantas árvores foram derrubadas para criação de pastos, como o empresário influencia na economia local, quais os lobbys por trás disso tudo. É difícil olhar pra realidade.

Você não tem saudades da ignorância?

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