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Você ainda vai continuar dizendo que funk é “coisa de bandido”?

Você pode sujar as mãos de sangue.

Por Luide
4 de dezembro de 2019

Que existe uma caricatura do “brasileiro de bem”, patriota, mas que odeia tudo que realmente seja cultura brasileira, isso nós sabemos.

Acontece que esse discurso já deixou de ser uma simples opinião para se tornar parte de um problema sistêmico, higienista e racista: a partir do momento que você taxa determinado movimento cultural como menor e passa a associa-lo a “coisa de bandido”, acaba se tornando parte, mesmo que essa não seja sua intenção inicial, de uma violência contra aqueles que vivem e praticam essa cultura.

Passamos tanto tempo consumindo e endeusando o que vem de fora, que criamos uma certa régua invisível para medir o que é ou não arte. E é impressionante como sempre é a arte que nasce nos guetos, na periferia, na quebrada, que é vista como menor. Isso já aconteceu com o samba. Isso já aconteceu com o rap. Isso acontece agora com o funk.

Não cabe a mim apontar o absurdo do que aconteceu em Paraisópolis. Se você, cidadão normal e dono das suas faculdades mentais, não enxerga a gravidade daquilo, não será um simples texto aqui no instagram que fará. Você é tão parte do problema e nem ao menos sabe disso. Ou sabe e faz questão de fazer.

Mas a mim, no alto do meu privilégio de poder sair de casa, beber minha cerveja e não se espancado, sinto ódio. Muito ódio. De nada adianta eu dizer por aí que tenho um podcast de cultura pop, mas fingir que tá tudo bem quando é esse o assunto. Não está. Nunca esteve. O que mudou é que agora os moradores da quebrada tem celulares para filmar os absurdos. E nós temos as redes sociais para replicar.

Acontece que quando você diz por aí que “funk é música de bandido”, você cria um estereótipo. Você carimba nos frequentadores do chamado FLUXO (vídeo abaixo) a palavra BANDIDO. São maus e portanto, mereceram ser exterminados. O ponto aqui não é se deva ou não acontecer um baile no meio da rua e se os moradores aprovam ou não o barulho.

O ponto aqui é a desumanização desses adolescentes mortos. É tratá-los como merecedores, já que na sua cabeça, eles estavam ali curtindo “música de bandido”. Estavam no “lugar de droga”. Imagina se isso fosse dito para um pai que perdeu um filho no incêndio da boate Kiss? Seria imperdoável.

Mas as mães desses adolescentes, caso tenham estômago para passar 10 minutos nas redes sociais, certamente terão que ler que seus filhos estavam no lugar errado, LOGO…

Tome cuidado com sua opinião corajosa sobre o que é ou não cultura. Você pode sujar as mãos de sangue.