Viramos piada em Black Mirror

Bandersnatch é Black Mirror rindo da Netflix e da sua cara.

Luide
Luide
8 de janeiro de 2019

Quando estreou no Channel 4, Black Mirror nascia como um Além da Imaginação para o século XXI, onde a tecnologia se uni de tal forma ao ser humano que é quase como uma espécie de órgão que surge para compensar uma deficiência evolutiva. Agora, viver sem celular é tão impossível quando não ter um pâncreas. Sendo assim, a obra de Charlie Brooker poderia falar sobre qualquer coisa usando a ficção científica como base. E funcionou muito bem. Suas primeiras duas temporadas mais o especial de Natal são para esse que vos escreve uma obra prima da tv moderna.

Ai veio a Netflix. A queda na qualidade dos roteiros, da imaginação do autor e a repetição de temas mostrou que Brooker funciona melhor sendo aquele sujeito cínico rindo do entretenimento e não o centro dele, já que no maior serviço de streaming do mundo é meio impossível não ser engolido pelo hype. E em sua quarta temporada, Black Mirror parece ter entendido seu espaço e passou a jogar com o público, com episódios burros, mas que deixam aquela impressão de “isso é muito Black Mirror“. É como se a série se tornasse uma paródia dela mesmo. É como se o Porta dos Fundos resolvesse brincar com Black Mirror em seu canal.

Não é saudosismo e muito menos “ficou famoso e perdeu a qualidade“. É fato, acontece. Charlie Brooker levava dois, três anos ou mais para escrever três episódios e agora escreves seis por ano. Normal. E enquanto a quinta temporada não chega, ele resolveu brincar com a própria plataforma em Bandersnatch, um filme interativo onde você escolhe o destino do personagem. Esse lance meio videogame que nos da uma falsa sensação de poder já que na vida real somos nós que vivemos sob ordens (dos pais, do chefe, do Estado e por ai vai). Ninguém é livre e poder controlar a liberdade de alguém é maravilhoso.

Bandersnatch é um deboche do começo ao fim. Escrito pelo próprio Charlie Brooker, o cinismo do roteiro é nítido. Tudo ali é feito pra zombar não só da plataforma, mas também do assinante. Os dilemas morais vazios, aqueles papos filosóficos de adolescente no primeiro ano de faculdade, a violência e “finais que explodem cabeças”. Ou seja: tudo pra agradar aquela audiência inteligente que faz thread no twitter, cria teorias sobre os episódios da série e com isso mantém a Netflix sempre no topo das discussões. Bandersnatch é o primeiro produto a entender a plataforma e rir dela de uma forma bem bobinha.

Black Mirror: Bandersnatch tem que ser visto mais como uma piada do próprio Charlie Brooker do que um filme em si ou uma tentativa de emular um episódio da série regular. E por isso funciona bem, coloca o espectador em uma eterna roda de possibilidades e situações onde ele irá se questionar se pode ou não fazer isso. Ou se emula um GTA e sai atropelando todo mundo. É diversão pra adulto em crise.

Talvez seja o único episódio decente de Black Mirror feito pra Netflix. Vamos ver como envelhece.

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