Um final feliz não é o bastante para The Night Of

No fim de tudo, um final feliz seria mesmo possível?

Luide
Luide
29 de agosto de 2016

Apesar de algumas exceções, a tv moderna fez questão de mostrar que um final não precisa ser necessariamente feliz. Praticamente todas as grandes obras orbitam nessa mistura entre o total pessimismo e o trágico. De Sopranos a Breaking Bad, nós nos precavemos a esperar sempre o menor dos estragos. Finais felizes com pessoas se casando e crianças correndo na areia da praia? Deixa pra Globo.

The Night Of deixou claro que não veio para mostrar algum tipo de otimismo barato ou falso moralismo. Do primeiro ao oitavo episódio, a série da HBO tratou com bastante seriedade o tema que resolveu abraçar, e principalmente, trouxe ares de realismo para a ficção. Em meio a sessões no tribunal e argumento de defesa e acusação, The Night Of encerrou a jornada de seu protagonista mostrando que mesmo inocentado, Nasir está longe de viver um final feliz e radiante.

Na noite em que Naz foi preso, ele perdeu muita coisa…

Ele transpirou inocência desde sempre, e The Night Of fez questão de deixar a dúvida quente em nossa mente acumulando indícios de sua culpa. E nem mesmo com o fim do julgamento estamos convencidos sobre o que de fato ocorreu naquela noite. Mas não é isso o que importa. Ao longo de oito episódios, assistimos como o sistema judiciário é complexo, mas não deixa de ser frágil. E enquanto advogados e promotores tentam provar a culpa de alguém, esse alguém vai sofrendo todo tipo de inferno na Terra.

Nasir nunca mais será o mesmo, e sua vida pós cadeia é mais uma das histórias não contadas que teremos que preencher em nossa mente. Isso é a tv de qualidade, que jamais entrega ao espectador aquilo que ele tanto cobiça.

John Turturro foi o grande nome dessa série. Seu personagem Jack Stone brilhou do início ao fim, explorando as vária faces do homem frustrado acostumado com as sobras. Sozinho, dependente do trabalho não apenas financeiramente, mas psicologicamente, Jack Stone é o típico desacreditado por todos, motivo de desconfiança e com zero de esperança. É o ciclo vicioso de muito, aqueles que se encontram totalmente desumanizados. Porém no meio de tanta tragédia, o simples fato de Stone adotar o gatinho órfão mostrou que o personagem conseguiu algo para se agarrar. Foi simples e bonito.

Atuação de gala. Personagem que merecia mais algumas temporadas. É o melhor advogado de 2016, sinto muito Jimmy McGill.

The Night Of não deixou de lado seus periféricos, e soube valorizar os coadjuvantes. Detetive Box é um deles. Perto de se aposentar e com o caso de sua carreira em mãos, o homem responsável por selar de vez o destino de Nasir sentiu o golpe da dúvida. Afinal, foi isso que The Night Of fez desde o início.  No fim das contas, a justiça se mostrou acomodada, ou buscou o caminho mais confortável para correr. Do acordo que Nasir recusou, a desistência da acusação. Foi mais fácil assim.

The Call of the Wild (Part 8)

Mas as coisas nunca mais serão as mesmas. Nasir foi condenado: entrou em um jogo perigoso e gostou dele. Sentiu na boca o sabor de não se curvar, de aumentar o tom da voz, e fazer coisas que sua moral não permitia. Sua família foi condenada: terá que conviver pra sempre com a sombra do que aconteceu, os olhares que incriminam, a suspeita constante. Chandra foi condenada: um momento de deslise lhe custou uma carreira como advogada.

A morte de Andrea mudou a vida de todos ali e um final feliz não coube a The Night Of, assim como normalmente não cabe ao mundo real. E como Jack Stone deixa claro, logo haverá um novo alguém a ser julgado. Um novo corpo no chão. Um novo ciclo de destruição.

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