Um episódio que toda internet deveria assistir

B.A.N. de Atlanta é um desses episódios que podemos chamar de "geniais"

Luide
Luide
4 de abril de 2017

É difícil apontar o que é melhor em Atlanta. Talvez o ótimo roteiro bastante lúcido e pé no chão, as situações cotidianas sem nenhum tipo de exagerado, ou quem sabe o equilíbrio entre drama e comédia, onde o humor não é um ponto de escape, mas sim uma expressão natural de seus personagens. Pois é… difícil apontar onde Atlanta acerta mais. Donald Glover pega tudo isso, mistura e cria uma série que ousa experimentar e fugir de padrões estabelicidos.

Sabe a segunda temporada de Mr. Robot? A segunda de The Leftovers? As duas de Fargo? Aquela sensação de “isso é muito diferente do que estou acostumado assistir“. Atlanta é nessa linha.

E nessa de “experimentar” e “vamos fazer assim pra ver como fica”, Atlanta entrega um dos episódios (não tenho medo algum de dizer) mais geniais e importantes da televisão em 2016, quando foi originalmente exibido. B.A.N. é um retrato da confusão que cerca temas importantes que, até pouco tempo atrás, não tinham a chance de vir a público e serem temas de debates. É um episódio que toda internet deveria assistir e fazer uma auto-análise.

Se Atlanta não segue um padrão narrativo quanto a continuidade dos episódios, B.A.N. foge completamente de uma suposta “trama principal”. Ao invés de acompanharmos a história através de algum ponto de vista, nos tornamos espectadores de um canal de televisão, a B.A.N. (Black American Television). Do elenco principal apenas Paper Boi da as caras, ele é convidado para participar de uma espécie de mesa redonda com uma mulher trans a respeito da comunidade transgênera e “transracial”.

É então que o episódio escrito e dirigido por Donald Glover começa a provocar, sem nunca oferecer uma saída fácil. Paper Boi é acusado de transfobia quando, durante uma discussão no twitter, dizer que jamais transaria com Caitlyn Jenner. Sem muito entender o que está acontecendo, o rapper é o retrato de milhares de pessoas que simplesmente estão do lado de fora de discussões a respeito de identidade de gênero, homofobia, machismo, racismo e tudo que geralmente ganha destaque em rodas de internet.

Ao mesmo tempo que muitos (e com razão) militam com vigor pelos seus direitos, aqueles que nem ao menos tem a chance de saber do que se trata, automaticamente saem taxados como preconceituosos. Enquanto Paper Boi tenta se defender dizendo coisas como “eu não tenho nada contra Caityn Jenner“, a outra convidada, uma doutora também trans, e o apresentador, desenvolvem teses e mais teses que apontam o “machismo” e a “transfobia” do rapper em suas atitudes e canções.

Mas B.A.N. não para. Enquanto o debate toma rumos espinhosos, uma reportagem especial é chamada pelo apresentador. Somos apresentados a um jovem negro que se descobriu como um homem branco de 35 anos, e deseja passar por uma cirurgia para assumir seu “verdadeiro eu”. O homem conta emocionado as dificuldades que passa no dia-a-dia para se assumir um homem branco, enquanto todos o vê como um negro. Tudo isso é pra deixar a “proposta” do episódio ainda mais confusa na cabeça de quem achou que teria alguma resposta ou “moral da história”. Não é essa a intenção.

B.A.N. coloca em cheque aqueles que sem muito entender de suas ações, cultivam e espalham o preconceito. Mas também não deixa de expor o exagero e dificuldade de diálogo que muitos “esclarecidos” possuem para fazer sua mensagem ser digerida. É justamente quando Paper Boi diz que “tem coisa mais importantes para se preocupar, como não ser morto pela polícia“, que Atlanta se mostra como série madura e de uma inteligência única.

É fácil pra todo mundo subir em um pedestal de sabedoria e apontar o dedo. É muito simples abrir o twitter e digitar todas as suas qualidades enquanto homem desconstruído e cheio de empatia. O problema é se todo esse discurso está chegando onde deveria, ou é apenas uma isca em busca de likes.

Atlanta é genial.

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