ThunderCats e o culto a infância: quando adultos não sabem a hora de parar

O desenho nunca foi seu, meu querido.

Luide
Luide
20 de maio de 2018

A nostalgia nunca esteve tão em alta e parte disso é culpa da tecnologia. Se antes seu pai lembrava apenas com saudades dos programas que ele consumia na infância, hoje é possível passar horas no Youtube revendo desenhos antigos em um verdadeiro culto. Além do mais, é super aceitável que adultos gastem um dinheiro alto com bonecos e roupas que simbolizam esse momento de nossas vidas. Na infância tudo é mágico e nossos parâmetros do que é bom ou ruim ainda não existem (alguns nunca chegam a desenvolver, é verdade), sendo assim, acabamos presos em uma memória afetiva que nos faz repetir a frase de nossos pais: “no meu tempo era melhor“.

Não era. Arte e indústria se misturam cada vez mais e juntos evoluem, se transformam e se adaptam ao gosto atual, gosto esse cujo o público consumidor alvo é quem vai ditar tal adaptação. Sendo assim não existe “filme de super herói infantil demais“, o que existe são adultos tentando se apropriar de um produto que não foi feito pensando exclusivamente neles. É por isso que eles vivem se chateando.

A memória afetiva ainda vai além: faz com que o “fã” se considere dono daquilo que ama e trate tudo com um preciosismo exagerado. A nostalgia se tornou um mercado bilionário já que ninguém quer abrir mão de seus ícones. A questão não é esquecê-los, mas entender o que eles são. Um desenho animado pode ter te acolhido em um dia triste. Aquela HQ te fez refletir sobre coisas que você nunca imaginou. Aquele filme te tirou lágrimas. Esses sentimentos não morrem, ou não deveriam, e muito menos são substituídos. É neles que você precisa se apegar.

Mas então entra em jogo aquela velha recusa ao amadurecimento. O homem, principalmente, se prende aos seus heróis e personagens da infância e age como se ainda estivesse no colo da mãe. Milita por uma certa “pureza” ou “fidelidade” ainda se comportando como aluno na quinta série esperando a hora de assistir Bom Dia & CIA. Sendo assim, ele não suporta a ideia que, por exemplo, ThunderCats é uma franquia que está sendo passada de mão em mão, de geração a geração. Ele não é mais “dono” do  Lion-O, esse personagem agora pertence a molecada que irá assistir a nova versão para o Cartoon Netwoork.

Até certo ponto é possível entender a frustração. Eu mesmo me senti traído quando a nova versão de Os Cavaleiros do Zodíaco foi ao cinema. Era como se minha infância estivesse sendo pisada, mas foi nesse ponto que percebi o ridículo da coisa. Ao rever o anime clássico em busca de abrigo, percebi que não estava mais em sintonia e era melhor deixar aquilo onde deveria estar: na memória. O anime sozinho não me acolhe, mas sim seu contexto. A infância, o velho sofá da minha casa, meu pai chegando do trabalho no mesmo horário que Cavaleiros do Zodíaco começava… tudo isso criou esse afeto. Rever o anime aos 30 anos pelo Youtube é só uma tentativa de nostalgia barata.

E querer cobrar que as novas versões me tragam esse sentimento é inocência de minha parte.

O mesmo se aplica a tudo que consumimos. Não espere que o novo Han Solo te desperte o mesmo sentimento que o personagem de Harrison Ford. Não ache que ir ao show do Backstreet Boys vai te levar de volta aos melhores dias da sua adolescência. Essa fase já passou e está na hora de superar.

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