The Leftovers: o foco é em quem ficou

Apontada por muitos como um dos melhores dramas de 2015, The Leftovers espanta os menos dispostos a ler suas camadas mais internas

Luide
Luide
9 de dezembro de 2015

O efeito manada nada mais é que seguir um determinado grupo de pessoas que correm pra uma única direção, seja ela de ideias, opiniões ou determinados gostos. Pegando um exemplo em “nosso meio”, antes mesmo de Quarteto Fantástico estrear nos cinemas já tinha gente odiando o filme, isso porque a maioria dos críticos já davam a nota mínima. Eles seguiram a onda e ponto.

Eu segui uma pequena manada que apontava a segunda temporada de The Leftovers como um dos melhores dramas da tv em 2015. Resisti até onde pude e não deu: tive que parar tudo e começar a ver essa série. Quando ela estreou em 2014, a HBO estava toda badalada com o recém sucesso de True Detective e muita gente aproveitou e seguiu o efeito manada. “Opa, mais um drama original HBO com mistérios? Bora ver”. Eu fiquei de boaça.

Tudo porque o showrunner de The Leftovers é ninguém menos que Damon Lindelof, um dos caras por trás de LOST. Como vocês bem notaram, nunca toquei nesse assunto aqui no Amigos do Fórum. LOST foi uma série que passou e eu sofri calado, assisti alguns episódios e logo me desinteressei. Eu detesto essa pegadinha da “escalada do mistério”, que engana o espectador e o faz seguir assistindo a uma obra apenas pela curiosidade, não pela qualidade em si.

Então mesmo lutando contra meus instintos resolvi dar uma chance pra The Leftovers, o que é uma merda, afinal, tô vendo a primeira temporada pensando na segunda, que tá tudo mundo elogiando. Aliás, é quase unânime por parte dos fãs dizerem que vale a pena passar pelos 10 primeiros episódios, já que a série praticamente se transforma nos próximos.

A princípio, o que me deixou bastante aliviado com Leftovers é como a série trata o mistério inicial que leva pra algum lugar 2% da população da Terra. Em momento algum (ao menos até o quinto episódio no qual me encontro) isso é o ponto principal do roteiro. Leftovers é sobre quem ficou e não quem partiu. Outra vantagem é focar em uma cidade pequena ao invés de uma grandes metrópoles, assim, sempre teremos mais do comportamento humano pós “arrebatamento” do que um panorama geral de como o mundo ou sociedade ficou.

Como regra da HBO, Leftovers tem uma produção de dar inveja a qualquer outro canal. A emissora que deu início a uma nova era de ouro na tv não decepciona nunca no aspecto técnico. Aliás, a trilha sonora é uma das coisas essenciais para a imersão nesse universo proposto. É uma sensação que vai do alívio ao desconforto, sem dúvidas um dos pontos alto de Leftovers.

A trama em si não é confusa, não é cheia de mistérios que o próximo episódio precisa resolver (ou não), aquela coisa de sempre. Mas Leftovers é coberta de camadas e mais camadas de entendimentos, que podem variar dependendo do que você está disposto a entender. É nítido a relação entre fé, culto, cristianismo, céu e inferno. Em muitos momentos só mesmo recorrendo a comunidade chamada internet para refletir melhor sobre o que aconteceu.

Porém o problema de Leftovers é muitas vezes entregar apenas isso, deixar tudo meio simbólico, tipo “corre atrás pra entender isso aqui“. Às vezes é uma analogia meio óbvia, mas enfim, ainda falta algo. O elenco foi bem selecionado e a série desenvolve um cardápio de diferentes impactados pelo evento que levou mais de 140 milhões seres humanos pra algum lugar. Cada um carrega sua própria chagas e precisa lidar com esse mundo que ficou pra trás.

Ainda tá pra nascer uma série onde os filhos não sejam personagens insuportáveis…

É interessante notar como a falta de padrão nesse arrebatamento deixa tudo mais interessante e cria bons personagens, como um padre obcecado em mostrar que aquilo foi um teste de Deus para os que ficaram. Ou então os Remanescentes Culpados, uma das coisas mais bizarras em séries, parece coisa de Black Mirror.

Enfim, The Leftovers felizmente não pesa muito em misteriozinho, mas também está longe de ser um drama que surpreenda. Que venha o segundo ano.

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