The Handmaid’s Tale é o soco na cara mais poderoso da televisão em 2017

Primeira temporada coloca a adaptação da obra Margaret Atwood como a principal e mais importante série de 2017.

Luide
Luide
21 de junho de 2017

Uma das coisas que mais me incomodam são pessoas que não são vítimas de determinados preconceitos ou abusos, tentando trazer pra si o assunto. Um exemplo é aquele típico homem pidão, que ao invés de ouvir o que mulheres tem a dizer sobre assédio, começam a discursar no quanto eles “sentem muito por serem homens” ou a obsessão em alegar que “nem todo homem é assim”. Mas é impossível olhar para The Handmaid’s Tale e não apenas refletir sobre o que foi a primeira temporada dessa série, mas também investigar a mim mesmo e o os chamados “privilégios masculinos”.

Afinal estamos diante de uma série que explora até o limite do possível uma sociedade que retira todos os diretos das mulheres, dominada por homens e que persegue aqueles que não se ajoelham perante sua visão do que é correto. Destruindo todas as leis conquistadas, e fazendo um uso bastante pessoal e desonesto da bíblia, um grupo toma o controle dos EUA, dividindo o país novamente em pequenas repúblicas, que vivem sob vigilância constante e obedecem uma série de normais sociais e morais baseada em uma teocracia opressora.

Enquanto homens prosperam e são livres inclusive para trair a fé que eles mesmos se dizem guardiões, as mulheres possuem postos bastante específicos. Ou são arrumadeiras, servas ou escravas sexuais, as chamadas Aiais, cuja a única função é engravidar, ou como um Comandante dessa nova república deixa claro, exercem a única função da mulher: reprodução.

Portanto, fica impossível desassociar The Handmaid’s Tale com nossa própria realidade, e como as conquistas femininas ao longo das décadas precisam ser preservadas. Margaret Atwood, escritora do livro que deu origem a série, define sua obra não como ficção científica, mas uma ficção especulativa. É um exercício imaginativo de “e se…“. E se as mulheres perdessem todos os seu direitos? E se nossa democracia fosse obliterada e desse lugar a uma ditadura bem intencionada (na série, por exemplo, a nova república pós EUA se orgulha de reduzir a emissão de gases poluentes, por exemplo)?

No centro disso está Elisabeth Moss, que interpreta Offred (todas as Aias possuem o “Off” + o nome do Comandante a que elas pertencem) e mostra todo seu poder dramática. É impressionante o que essa atriz é capaz de expressar, o que é essencial para transmitir ao espectador toda sua dor e o horror de seu mundo. Em The Handmaid’s Tale, ela é separada de seu marido e filha, e precisa lidar essa nova condição que não apenas ela, mas todas as mulheres férteis são submetidas. Vale lembrar que nesse mundo “especulativo”, ninguém engravida há 7 anos, e isso é usado pelos fanáticos como um sinal da desaprovação divina.

The Handmaid’s Tale é toda escrita por mulheres, além de possuir um excelente time de diretoras. Reed Morano que dirigiu os três primeiros episódios deixou suas marcas: ela também é diretora de fotografia, e todo visual poético da série é obra dela. O que exerce um papel ainda mais visceral, já que toda essa beleza contrasta com o universo terrível que a série se passa. Ou talvez não, esse universo está a ponto de explodir e ninguém percebeu.

Voltando ao início do texto, homens não conseguirão sentir exatamente o que uma mulher sente ao assistir The Handmaid’s Tale. É diferente. E falar sobre isso em um tom que não pareça pedante (“olhem pra mim, sou desconstruído”) é complicado, nesses casos, é melhor importar a máxima de A Chegada, e buscar ouvir mais, entender mais, e falar de menos. Mas, já me alonguei demais.

The Handmaid’s Tale é a grande estreia de 2017. É a maior porrada que uma série de TV deu até o momento. Uma primeira temporada perfeita.

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