Talvez você ainda queira sentir algo

Não se torne um Don Draper.

Luide
Luide
6 de novembro de 2018

A porta se abre e o vazio da sala é quem me recebe. Nos primeiros dias esse cenário que era fruto dos meus piores pesadelos me engolia por completo. Hoje me da boas vindas. E eu aceito ser recebido pela solidão. Não é aquilo que você lutou a vida toda pra conquistar, mas quem disse que temos controle? Quando a única companhia que temos somos nós mesmos, precisamos de uma boa conversa interna pra aceitá-la. Ou então uma fuga constante irá acontecer.

Don Draper sempre foi um homem solitário e transformou essa condição em sua mais poderosa armadura contra as emoções e a realidade. Um homem sozinho não precisa sentir nada pois não tem nada pelo que sentir. Don cultivou família, mas fugiu dela. O episódio fundamental para entender quem de fato é Donald Draper é Marriage of Figaro, o terceiro da primeira temporada. Em pleno aniversário dos filhos, o pai some e volta horas depois com um cachorro. Isso é um sintoma do quão engolido pela solidão alguém foi. Você não se importa e não se importar é uma das piores condições que nos colocamos em relação ao mundo.

Não apenas no presente, mas se isolar do passado é algo que move Draper. Em The Gypsy and The Hobo (S03E10) Betty finalmente expõe o que sabe sobre o marido. A reação de Draper fala por si só. Mais do que um medo de ser descoberto, aquilo provoca um confronto com um passado, com uma história. E ter um passado implica em sermos alguém e não é isso que um homem no posto de Draper precisa. Ele precisa desse vácuo emocional. Ele precisa não ser humano.

Não sentir. Não ter pelo que sentir. É isso que te transforma em alguém solitário.

Contemplar a si mesmo não é um erro. Auto-conhecimento nunca é demais e te ajuda a encarar o mundo. Se da porta pra dentro é a mim mesmo que tenho, do lado de fora existe um mar de pessoas que terei que me relacionar. É preciso ter isso em mente. Pessoas que me farão sorrir, chorar e ter raiva. Me farão sentir algo, e sentindo algo nunca serei solitário como Don Draper.

Encontrar ecos do seu atual momento em um protagonista de série pode parecer absurdo e coisa de gente que não tem o que fazer. Mas nunca foi só uma série. Não se trata de puro entretenimento. Nunca se tratou. Mad Men é uma das minhas revisitas favoritas ao lado de Breaking Bad. Matthew Weiner e seus roteiristas esconderam tantas nuances ao rever cada um dos episódios saio de lá com uma lição diferente. Nos momentos de solidão uma TV ligada no lugar certo pode valer mais do que uma sala lotada.

Talvez não seja tão ruim assim. Mas dispenso os cigarros, Don.

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