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Super Size Me 2: “coma esse lixo aqui. É orgânico”

Orgânico e letal.

Por Luide
27 de janeiro de 2020

Artesanal. Agricultura familiar. Criação humanizada. Crispy. Frescos. Vegan. Você certamente já leu algum desses termos em embalagens de produtos que, até há alguns anos, não pareciam assim tão saudáveis e amigáveis. Palavras como “diet” e “light” foram desaparecendo das gôndulas do supermercado e dando lugar para coisa como “orgânico” ou “sem glúten”.

Não, não foram os maus alimentos que, de repente, se tornaram bons e novos vilões surgiram. Longe disso. É simplesmente a indústria alimentícia se aproveitando do terrorismo nutricional que ela mesmo cria para te vender a solução.

Esse lanche pode ser extremamente gorduroso? Não se preocupe! O pão é integral!

O marketing agressivo, o uso correto das palavras (é crispy, não frito!) e até mesmo a disposição das cores e o ambiente para o consumo dessas porcarias: tudo é feito para que você continue comendo e destruindo sua saúde, mas com a sensação de que está ingerindo bons alimentos. E ninguém melhor para contar essa história que Morgan Spurlock. Ele mesmo: o cara de Super Sizer Me, que durante um mês, se alimentou apenas de Mc Donald’s.

Super Size Me 2: Holy Chicken! expõe toda a cadeia de problemas na indústria dos fast foods. Existe uma ideia de liberdade de escolha, que as pessoas comem fast foods sabendo que se trata de lixo ultraprocessado, entupido de gordura e carboidratos refinados. Quando na realidade a coisa é bem diferente do que se imagina. Você realmente acha que um Burguer King da vida iria abraçar a ideia de “somos horríveis, venha comer aqui“? Jamais.

Técnicas de persuasão e um marketing agressivo colocam na cabeça dos consumidores uma ideia de redução de danos. E isso vai desde os vegetais adicionados de forma milimétrica nos lanches, a recente investida em opções veganas. Essa indústria quer sempre se colocar como moderna, que ouve seus consumidores e está pronta para mudar. No fim do dia, a missão é a mesma: viciar você e seus filhos nessas porcarias hiper calóricas.

E para mostrar o passo a passo dessa estratégia, Morgan Spurlock resolve abrir seu próprio restaurante. Ok, fácil, mas… como seria um restaurante fast food com o rótulo de saudável? O que ele precisaria fazer? É a partir disso que Super Size Me 2 se torna tão bom e tão sofisticado na crítica: Morgan passa a entender o jogo de palavras para vender a comida, o uso das cores, fontes e toda a cadeia produtiva que cerca um simples sanduíche de frango.

Não há nada de errado de você querer se entupir do que quiser. Isso é um problema seu. Acontece que assim como há 50 anos o cigarro era associado a boa saúde, hoje é a indústria dos ultraprocessados que criam essa associação. Não importa o tipo de porcaria esteja dentro daquela embalagem, o importante é ela ser INTEGRAL, ou VEGAN, ou ARTESANAL, ou ORGÂNICA.

Infelizmente a realidade é um pouco mais cruel que “e dai que eu como Mc Donalds?“. No Brasil, o número de pessoas que morrem todos os anos em decorrência de maus hábitos só cresce. E já está na casa da centena de milhares. É assustador. Nunca se falou tanto de boa saúde, mas ao mesmo tempo, nunca estivemos tão doente e obesos. Pra você ter uma ideia: na última década, o número de brasileiros se exercitando e comendo verduras e frutas aumentou, mas ao mesmo tempo, a obesidade também. Onde está o erro?

É simples: como mostrado em Super Size Me 2, a indústria vai te convencer a beber um litro de soda cáustica se dentro dele estiver um alface e na embalagem um rótulo escrito ORGÂNICO.