A sombra da sua própria obsessão

Detetive Hays é a força motora dessa temporada de True Detective.

Luide
Luide
21 de fevereiro de 2019

Era mais de noite quando finalmente desliguei o computador e apaguei a luz do quarto. Após me levantar as 8hr da manhã para trabalhar, colocava minha cabeça no travesseiro novamente. Mas não consegui dormir mesmo estando exausto. No dia seguinte após uma péssima noite de sono, meu corpo começava a demonstrar sinais físicos que eu havia atingido o limite mental em relação a trabalho. Alguns chamam de burnout, palavra que só fui descobrir a existência há pouco tempo.

O fato é que esse desgaste se repete quase que diariamente, tudo porque resolvi conciliar um emprego CLT com os conteúdos que faço na internet. Esse site, o canal, o podcast e também os conteúdos exclusivos para os assinantes que mantém tudo isso funcionando. Sem perceber me tornei obcecado pelo meu trabalho, escravo dele e de suas exigências. Um dia livre me causa incômodo, me deixa inquieto. Hoje, no pouco tempo que estou sem fazer absolutamente nada, me pego pensando nessa dependência e até onde essa relação agressiva com o trabalho pode ser benéfica.

Corta para True Detective.

Assistimos ao detetive Wayne Hays transitando por 25 anos entre a primeira vez que teve contato com o sumiço das crianças até o ano presente da série, onde o crime segue sem respostas. Nessas quase três décadas o que vimos foi um homem que se prendeu ao trabalho e transformou isso em sua única e maior obsessão, a ponto de tudo em sua vida girar em torno desse “trabalho inacabado”. É algo mais do que pessoal.

Essa terceira temporada de True Detective joga dentro de todas as fórmulas seguras possíveis. Não há muito o que inventar e Nick Pizzolatto também não parece muito interessado. É como se o próprio autor tivesse jogado a toalha e sabe que é praticamente impossível criar algo melhor que o primeiro ano. E na verdade não precisa, esse terceiro ano tem que ser bom apenas por ser bom. Mesmo assim as comparações são inevitáveis, ainda mais agora com a piscadinha para o espectador, com aparição de velhos conhecidos (piscadinha que já havia comentado nesse vídeo aqui).

De todo modo, o que essa temporada faz é apostar nas consequências que o crime causou não apenas nas vítimas e seus próximos, mas no próprio detetive. É em Hays que tudo se concentra e é nele que a história orbita. Para ele há mais do que simplesmente um caso em aberto, é uma vida que pode ser jogada fora. Não existe mais uma divisão entre o que é trabalho e vida profissional, aqui é tudo uma coisa só. Uma coceira que não tem fim.

Ao longo das três linhas temporais, vemos que Hays vai ao pouco perdendo tudo ao seu redor, com o exceção do filho que segue ao seu lado. A esposa, o parceiro, a sanidade e inclusive o trabalho. Ele não se sustenta já que existem fatores limitantes de até onde ele pode atuar. É se mesmo estando esgotado naquele dia, com meu corpo pedindo calma, eu tentasse seguir trabalhando até madrugada. Tudo tem um limite.

A terceira temporada de True Detective joga com o espectador e cria um mistério um tanto bobo para acompanharmos, mas acerta em cheio em seu protagonista que nada lembra personagens anteriores e acaba levando tudo nas costas. Mais essa para o próprio Hays.

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