Silêncio, seu pai está chegando

Ou partindo.

Luide
Luide
19 de dezembro de 2018

Silêncio! Seu pai está chegando” é uma frase que certamente você deve ter ouvido durante a infância. O anoitecer marcava esse momento de completa tensão. O retorno do patriarca ao lar, sempre cansado, sempre indisposto e com cara de poucos amigos. A janta deveria estar pronta, os filhos limpos e a casa completamente disponível para recebê-lo. A figura autoritária enfim chega, abraça os filhos, da um beijo sem graça na esposa e vai “relaxar após um longo dia de trabalho”.

Entre todos os momentos que quase me sugaram para dentro da televisão (ver a estreia de um filme na sala de casa ainda é um tanto estranho) a chegada do pai em Roma é uma das mais marcantes. Com um cigarro em mãos e o rosto encoberto pelas sombras, ele tenta estacionar o seu Galaxy cuidadosamente. Enquanto isso, a família o espera na porta. Essa cena simboliza toda uma questão que estará presente no filme: a dor da ausência do pai e a celebração de sua presença.

Alfonso Cuaron faz de seu novo trabalho um recorte de memórias de sua infância e consequentemente nos leva direto para um mundo de memórias próprias. Mesmo que nós não sejamos parte de uma classe média com direto a empregadas dormindo em casa, a sensação de estarmos presenciando algo comum a todos é gigante. A simplicidade das coisas, os momentos ordinários… tudo desperta uma ideia de familiaridade. E talvez seja pra mim, pra você e pra muita gente. Um dia você assistiu seu pai manobrando o carro na garagem, e também um dia viu ele saindo pela porta para nunca mais voltar.

Quem sabe o que você viu. Quem sabe o que tem aí nas suas memórias.

Nas de Cuaron é a família, uma espécie de centro gravitacional de tudo que acontece de importante no mundo e em nossa existência. A avó perambulando pela casa, as brigas com os irmãos, o carinho que não veio na hora certa. Tudo isso é tão comum e tão poderoso que não é difícil imaginar o porque de Roma ser esse filmaço. O simples nunca foi fácil de se explicar.

Pra contemplar todos esses pequenos momentos que mudam vidas está Cleo, uma observadora silenciosa que também se vê no meio do inevitável. Abandonada, em luto, muitas vezes um acessório para aquela família que lhe diz acolher. Cabe a Cleo reagir. Até que ela se torna de fato o motivo dessa história toda existir. E sua história é também a de muitos. E que dor.

A casa onde tudo acontece divide esse protagonismo. Como uma espécie de gravador de memórias, onde cada ambiente se torna testemunhar ocular de várias vidas que se entrelaçam. A de Cleo, do pai, da mãe, dos filhos, dos avós e do cachorro sempre preso. As paredes tem histórias. Roma também, não se trata apenas das memórias de Cuaron, mas de muita gente.

A Netflix está próxima de conhecer a glória graças a isso.

Agora silêncio. Seu pai pode estar chegando. Ou partindo.

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