Seven Seconds: uma série policial que não esquece do fator humano

Nova série de Veena Sud, criadora de The Killing, não deixa de lado aquilo que mais importa.

Luide
Luide
12 de março de 2018

No dia 26 de fevereiro de 2012, um jovem de 17 anos chamado Trayvon Martin estava a caminho da casa da namorada de seu pai quando foi morto pelo vigia George Zimmerman. Em 2013 o vigia foi absolvido, alegando que agiu em legítima defesa. O incidente deu origem ao movimento Black Lives Matter, que saiu das redes sociais e ganhou as ruas de várias cidades dos EUA. A truculência policial com negros é tema recorrente e diversos episódios da cultura americana foram marcados quando temas raciais e justiça entram em conflito. O julgamento de O.J. Simpson é um exemplo clássico de todo peso social que casos assim carregam (recomendo o documentário O.J.: Made In America para entender um pouco o contexto).

Seven Seconds, a nova série Veena Sud para a Netflix, entra nesse debate. Tudo começa quando um policial branco atropela um garoto negro e o deixa agonizando durante 12 horas, abandonado no local do acidente. O caso foi acobertado com a ajuda de outros policiais e que assim como o trabalho anterior de Sud, The Killing, Seven Seconds nos apresenta uma família em luto, detetives problemáticos, um departamento de polícia contaminado e a cidade como personagem vivo.

Algo raro de acontecer na Netflix, Seven Seconds é um produto de autor e Veena Sud deixa suas marcas por todos os lados. A primeira e talvez uma das mais importantes, é a forma como a série não trata do luto como algo banal e jamais se esquece do fator humano. É comum que séries de detetives e policiais a morte que da início a trama nunca é sentida pelo espectador. É como se fosse mais um dia comum na vida dessas pessoas e dos familiares que ficam. Em The Killing a perca da filha abalou a família Larson e transformava a série em algo vivo. Impulsionava a trama pra frente.

O mesmo acontece em Seven Seconds. O crime não é simplesmente tratado como um procedimento protocolar, todos os envolvidos na história são afetados por ele. A diferença é que ao invés da clássica dupla de detetives, a série coloca a auxiliar de promotor KJ Harper e o detetive Fish para trabalhar juntos, ambos problemáticos e cheios de particularidades.

Mas Seven Seconds não centraliza a história em seus protagonistas e abre seu leque para outros personagens. Nesse ponto a cidade se torna importante pra trama. Em The Killing a cidade cenário era Seattle, uma das mais chuvosas dos EUA e o clima sombrio e de luto que a série transmitia era potencializado pela chuva que insistia em cair. Em Seven Sedons é Nova Jersey quem pulsa e da todo o tom. Dominada pelo tráfico de drogas, viciados e policiais corruptos, ela se torna parte fundamental da trama com suas ruas abandonadas e decadentes.

São três núcleos trabalhados de forma bem dosada: a família, os policiais e os detetives. Todos ganham o devido espaço e por isso a imersão na série acontece de forma orgânica. Ao perceber o que está em jogo, nos apegamos aos personagens e sentimos sua dor. Nisso Veena Sud é certeira.

Seven Seconds está disponível na Netflix e apesar do seu ritmo por vezes acelerado, se distancia das típicas produções do serviço de streaming e entrega uma primeira temporada bastante honesta. É um drama policial onde a investigação e o desenrolar do caso não encontra o principal fator: o humano.

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