São e salvo e forte

Sangrei demais.

Luide
Luide
8 de julho de 2019

Ainda tentava juntar os cacos do que estava acontecendo quando me lembrei que precisava gravar um episódio Rebobinando. Era uma semana tensa, depois que meu processo de separação finalmente havia acontecido e a partir daquele momento meu convívio com a minha filha não seria mais como era antes. Eu não estaria presente fisicamente todos os dias e aquilo me destroçava a cada segundo. De qualquer forma, a gravação estava marcada para a noite e ao longo do dia senti uma angústia tão forte que minha cabeça parecia oca por dentro.

Mas eu precisava trabalhar. Não por mim, não pelos ouvintes. Mas pela minha filha. Ela odiaria saber que seu pai mal conseguia respirar. E assim foi, dia a após dia, sono após sono, trem após trem. Hoje eu morri, mas amanhã eu não morro. Ao me deitar, sempre pensava que a dor seria menor ao acordar pela manhã. E assim foi. Dia após dia, sono após sono, trem após trem. No fundo somos todos casca dura, gente teimosa que não cai e que se recusa a ser derrubado. Quando a dor passou a ser menor, me senti um sujeito de sorte. Alguém privilegiado por ter passado por tudo aquilo e ter saído são, salvo e forte.

Vi muita gente falando sobre AmarElo, o novo clipe do Emicida com participação de Majur e Pabllo Vittar e que utiliza como sample um trecho de Sujeito de Sorte do Belchior. Naqueles dias em que tudo estava sendo difícil pra mim, alguém me mandou pelo direct do instagram essa música. “Ouve ae Luide, vai te fazer bem“. E fez. Por algum motivo me enchi de orgulho. A frase “são e salvo e forte” teve um significado bastante pessoal.

É bastante comum que nos entreguemos a vícios quando passamos por momentos terríveis. O álcool é sempre tão convidativo, afinal, você está ali, triste e tem cerveja na geladeira. Começa assim. Eu, estando sozinho ao longo da semana, tive medo de pegar esse bonde. Mas resolvi ficar são. E salvo. E me tornar forte. Cuidei do meu corpo, da minha saúde, trabalhei e nos momentos que a solidão se tornava uma companhia insuportável, ligava pra minha mãe ou ligava o microfone. Gravar podcast, falar com pessoas desconhecidas que estão vivendo seus próprios problemas me ajudou. Me salvou. Digo sem medo de exageros.

Emicida é um bom sujeito. Lembro de em 2010 ouvir seu álbum EMICIDIO e achar do cacete. O cara cresceu muito como artista, como ser humano e é uma voz que faz ainda mais barulho. AmaRelo é de uma sensibilidade tocante. O áudio do início, a participação de Majur e Pabllo… tudo se encaixa, e a poesia de Belchior abençoa e cobre de razão tudo que está sendo dito. Tem dias que dói, tem dias que não, tem dias que você quer que a dor acabe e quer encontrar um jeito rápido de acabar com ela. Mas você já não sofre no ano passado, você não sofre mais pelo que já sofreu.

Ano passado você pode ter morrido, mas nesse e nos próximos anos não. Fique são, salvo e forte.

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