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Rick and Morty e a tragédia da Cidadela em mais um episódio consagrador

The Ricklantis Mixup (S03E07) é mais um episódio espetacular que coloca Rick and Morty entre as principais obras da televisão.

Por Luide
13 de setembro de 2017

É difícil apontar para um único caminho que Rick and Morty segue. A série é dona de um humor sofisticado, sem pedantismo ou muletas, fazendo comédia “politicamente correta” ao mesmo tempo que é “politicamente incorreta”. Tem seus momentos dramáticos muito bem executados, é extremamente imaginativa ao usar a ficção científica. Mas também fornece fortes doses de filosofia, da mais vagabunda até a mais complexa. Tudo isso enquanto brilhantemente usa e abusa de seu formato na televisão. É mais ou menos como Twin Peaks: a gente pode fazer desse jeito, mas porque a gente precisa?

Em The Ricklantis Mixup (S03E07) todas essas qualidades de Rick and Morty são usadas da melhor maneira possível. A Cidadela dos Rick’s começa a engrenar e se tornar uma sociedade como todos nós conhecemos muito bem aqui na realidade C-137: desigual, violenta e caótica, com os grandes centros abarrotados de gente, o que contribui ainda mais para potencializar esses três problemas apontados. Não é a primeira vez que a série toca nesse tema, aliás, ele é recorrente. Seja através da programação multidimensional da televisão, ou uma raça que resolve seus problemas reservando um dia do ano para “expurgar” o ódio concentrado.

Aqui o episódio parte para uma narrativa sobre castas, e como toda nossa estrutura atual se desenha para culminar na hierarquia de pessoas. Se todos os Rick’s são iguais, porque alguns são médicos e outros estão confinados em uma fábrica? É a meritocracia ou, apesar da suposta “igualdade”, vivemos em uma sociedade de privilegiados? O Rick policial não se esforçou o suficiente para ser um Rick empresário? Enquanto isso, os Morty’s são marginalizados e a única coisa que une todos esses Rick’s, do maior ao menor, é a certeza que eles estão no lugar que merecem.

Mas seria fácil apontar o dedo pra essa ferida sem antes brincar um pouco com o tema. Um dos Morty’s surge como aquele que transformará essa sociedade desigual e injusta, afinal, ele veio de uma camada menosprezada, sem oportunidades, e chegou ao topo com méritos próprios. É o tipo de figura que adoramos adorar. Até que ele chega ao poder. É mais do que apenas o “oprimido se tornando opressor“, é algo mais poderoso e incômodo.

“Um discurso sobre política, sobre ordem. Sobre irmandade… sobre poder. Mas discursos são para campanha. Agora é hora da ação”

Diz o Morty presidente. Ou ditador? Enquanto corpos de seus opositores são arremessados ao espaço.

O exagero aqui não está distante do que nós vivemos em looping, e ver isso acontecer em uma sociedade que praticamente acabou de surgir, mostra que de uma maneira quase demoníaca, estamos fadados a ver isso acontecer o tempo todo. E de novo. E de novo. É como se a esperança fosse algo tão fabricado e falso quanto um biscoito feito dos mais belos e prazerosos sonhos. No fim, a Cidadela vive uma rotina imposta, onde cada um desempenha o papel que lhe é direcionado, a ordem é estabelecida por uma voz superior, e as coisas funcionam como uma engrenagem.

Não há espaço para revolucionários e otimismo.

O vácuo do espaço é o que nos espera.