Não deixe Rebirth, o novo longa original do Netflix, passar batido da sua lista

Um filme sobre o "discursinho da vida feliz"

Luide
Luide
10 de agosto de 2016

Lá em 2012 todo mundo ouviu falar da TelexFree, ou tinha algum amigo/conhecido que participava. Certamente alguém te convidou pra entrar no programa, prometendo dinheiro fácil e pouco trabalho. Claro, não existe mundo mais perfeito do que esse, onde com o mínimo de esforço você obtêm o máximo de retorno. É basicamente a vida contrária de 99% da população brasileira, que trabalha a exaustão pra poder comprar, por exemplo, um celular que custa 4 meses de salário.

A TelexFree é apenas uma das várias empresas que trabalham com essa “filosofia” de sucesso, que vão desde a venda de esmaltes a um lugarzinho no céu. Alguns se valem da carência e inocência, outros, da ganância. E o que todas tem em comum é a obsessão de seus associados, que entram em um círculo vicioso e tornam-se verdadeiros zumbis. Rebirth, novo longa original do Netflix, vem pra brincar um pouco com essa temática em um filme surtado e com uma boa dose de suspense.

E começa nos apresentando Kyle, um pai de família comum, que trabalha para um banco. Os primeiros minutos nos apresentam sua rotina de homem, marido, pai e funcionário. São repetições diárias que nos levam a crer que, de algum modo, aquilo que Kyle tem é ruim e tedioso. E é justamente essa ideia errada sobre nossas vidas que nos tornam presas fáceis para essas empresas. Ou outras instituições.

E estar alerta a essa tentação é um dos grandes desafios da vida moderna. O tempo todo somos bombardeados com histórias e relatos de pessoas felizes que abandonaram a rotina para viver o sonho (obviamente, a mensagem sempr envolve gastos astronômicos). A intenção é uma só: criar um incomodo, a coceira atrás da orelha, levá-lo a se questionar se sua vida é mesmo boa. E como isso destrói pessoas diariamente. Afinal, pessoas donas de si mesmo, que encontram a real felicidade não dão tanto lucro. “Ser feliz” hoje em dia é consumir, ter (carro novo, viagem nova, guarda roupa lotado, festas intermináveis).

O padrão desses grupos é sempre o mesmo, e chega a fácil de ser percebido. A sedução vem através de uma fala amigável e uma tentativa de “choque de realidade”. É sempre o discurso padrão de liberdade, mas que na verdade prende ainda mais quem o aceita. Não por menos pessoas envolvidas nesse tipo de negócio são completamente obcecadas e monotemáticas, sempre exaltando o quão feliz é fazer parte do “time”. Mas como isso só funciona como um parasita, sua vitalidade está na transmissão.

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E não se prenda a imagem de uma TelexFree da vida, esse tipo de coisa acontece o tempo todo, seja através de webcelebridades fitnness ou empreendedores de facebook, que lotam sua timeline com mensagens incentivadoras como “se você tem menos de 30 e ainda não viajou o mundo a culpa é só sua“, jogando todo o peso nas suas costas, que ser pobre é um crime, e como assim você ainda não ganhou seu primeiro milhão? Mas lembre-se: assinando esse plano aqui, você terá acesso a uma gama de material que irá te ensinar o jeito certo de viver.

Rebirth (2016)

E etc. E tem gente que cai. E Kyle é um cara que apesar de ter tudo, é levado a crer que não tem nada.

Não se espante se enxergar em Rebirth uma tentativa de emular Black Mirror em um longa metragem, a proposta lembra um pouco a aclamada série de Charlie Brooker.

Rebirth tem uma boa dose de tensão e suspense, e certamente te fará lembrar de algum amigo ou parente que se afundou nesse mar de lama, onde empresas vendem um novo padrão e estilo de vida através de produtos pra emagrecer. Certamente irá passar batido pela maioria dos assinantes do Netflix, mas vale sua atenção.

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