Queria que todos vocês soubessem a maravilha de filme que é Projeto Flórida

Um olhar sobre pequenos dramas e histórias mais comuns do que se imagina.

Luide
Luide
5 de fevereiro de 2018

A sensação de impotência que permeia a paternidade parece crescer ao avançar da idade dos filhos. É como se ao invés de me sentir mais seguro de que sou um bom pai e faço as escolhas certas, sinto-me cada vez mais distante daquilo que considero ideal. Mas ponderando a respeito desse sentimento, percebo que pode ser positivo: a inquietação de estar sempre disposto a melhorar como pai e proporcionar uma boa educação a minha filha.

A responsabilidade é enorme. Ao mesmo tempo que preciso evoluir e amadurecer enquanto individuo, ainda tenho que cuidar da evolução de outro ser humano. É por isso que não raro me pego falando ao telefone com minha mãe, pedindo conselhos. Eu cuido de uma criança, e as vezes preciso ser cuidado. Os vestígios da criação de minha mãe estão na criação da minha filha. É o ciclo.

Assistindo Projeto Flórida, que já antecipo ser o meu filme favorito assistido em 2018, me peguei pensando nessa situação e no peso da forma de como escolhemos conduzir os primeiros anos de nossos filhos. Dirigido por Sean Baker, o filme nos coloca como observadores da vida de uma parcela da população americana que vive à margem da sociedade na cidade de Orlando. Morando em hotéis e complexos baratos estão dezenas de pessoas que, por não ter condições de uma moradia fixa, pulam de quarto e quarto, sendo assim sua única forma de sobreviver enquanto buscam formas de se sustentar.

No centro da trama está a pequena Moonee e sua jovem mãe Halley. Jovem mesmo. Halley é o típico caso da gravidez precoce, da mãe abandonada, cujo a mentalidade está longe de estar madura o suficiente a ponto de ser responsável por outra vida. Apesar de todas suas escolhas erradas, e nosso julgamento moral de que ela é sim merecedora dessa vida à beira do lixo, Projeto Flórida nos mostra o quão frágil e difícil é viver na pele dessas pessoas que estão longe de serem uma exceção. Eles são a regra, até mesmo no país da Disney.

Em sua primeira metade, Projeto Flórida deixa que Moone e suas amigas nos conduza. A atriz Brooklynn Prince de apenas 7 anos da um show. É inacreditável o que essa criança faz atuando. É monstruoso. Moone nos leva para descobertas, mostrando o quanto a infância é um mundo a parte do nosso, mesmo em situações com pouco brilho. O filme nos enche de cores e aventuras. É simplesmente delicioso ver como ela passeia pelos hotéis, lojas e terrenos baldios da periferia de Orlando.

E se não fosse bom o suficiente, Projeto Flórida muda de tom em seus momentos finais e nos contar mais sobre o drama de Halley, a mãe. E como essa mudança é assertiva. Toda aquela aparente descontração vai por água abaixo quando a vida começa cobrar seu preço. Todo aquele micro universo que passamos alguns minutos observando se torna mais do que íntimo.

Não chega a ser um spoiler, porém, há uma cena perto do fim envolvendo Moone e sua amiga Jancey que teve o mesmo efeito em mim que uma paulada na nuca. Passar por todo filme vendo aquela garotinha mal educada e livre, me fez esquecer dos efeitos nocivos da má criação da mãe. Essa cena me fez lembrar do que Moone realmente é: uma criança. Nesse momento, o filme vai para seu momento final e sinceramente, não me recordo de um fim de filme tão belo nos últimos anos. É pra chorar e rir ao mesmo tempo.

Não consigo me desligar desse filme. A todo momento me pego pensando nele.

Projeto Flórida teve apenas uma indicação ao OscarWillem Dafoe para Melhor Ator Coadjuvante. Mais do que merecido, ele junto com Brooklynn Prince são as melhores atuações que vi no cinema em 2017/2018 (até o momento). Seu personagem é apenas mais um entre tantos outros que se acostumou ao trágico e apenas observa e pouco pode reagir diante dos problemas que surgem no percurso.

Poucos, mas poucos filmes conseguiram mexer tanto comigo. Que espetáculo.

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