Quem você seria nesse vídeo?

Uma tragédia, um vídeo e uma pergunta.

Luide
Luide
13 de fevereiro de 2019

O Brasil não está preparado para absolutamente nada, inclusive para tragédias. É como se tivéssemos perdidos a capacidade de simplesmente lamentar, ficar em luto, em silêncio e prover a ajuda necessária para as vítimas. E obviamente, se não é possível ajudar em algo, apenas um sinal de respeito seria o suficiente. Mas não, a gente precisa provar pontos diante do caos, discutir e ofender enquanto pessoas sofrem. Precisamos que a culpa caia em nossos inimigos ideológicos. Estamos tão anestesiados e dentro de um personagem que desaprendemos a reagir (e agir) diante de um evento trágico.

Tem vídeo?” foi uma das mensagens que passou por um grupo de WhatsApp que participo. Assim que a morte de Ricardo Boechat foi confirmada, alguém postou um print da notícia nesse grupo e logo em seguida veio a tal pergunta. Acostumados a vídeos de pessoas mortas em acidentes, sendo decepadas e levando tiro, a única coisa que importa nesse momento é entretenimento macabro onde a vida humana é um simples acessório da diversão. O que antes era renegado a fóruns e sites bizarros, hoje está disponível 24hr no seu celular, em grupos de família, sempre acompanhado do bom dia da sua avó e uma imagem motivacional da sua tia.

Com tantos espectadores prontos para devorar esse tipo de conteúdo, precisamos de pessoas dispostas a registrar esses momentos. Um acidente se tornou o momento ideal para sacar o celular e fazer um filme. Uma mulher sendo espancada na rua? Daria um ótimo meme. Uma criança sendo violentada por algum parente? A geração raiz vai gostar de ver. E se tem alguém que filme ou tire foto, vai ter alguém pra assistir e compartilhar.

O vídeo que pediram no grupo não demoraria para chegar até lá, na verdade, o vídeo do momento do acidente chegou em todo canto. Mas ao invés de mostrar corpos incinerados ou em pedaços, mostrou que no meio do caos alguém ainda estava disposto a olhar para a vida humana como algo mais importante que um viral de internet.

Leiliane Rafael da Silva, de 29 anos, é quem protagoniza uma das cenas que certamente ficarão marcadas no ano de 2019. O helicóptero que transportava o jornalista Boechat se chocou com um caminhão antes de cair. O motorista ficou preso em meio as ferragens e o tempo corria contra ele: as chamas estavam prestes a tomar o veículo, até que Leiliane desceu da garupa da moto em que estava e correu para socorrê-lo.


Arte de @ANGELOFRANCE

No vídeo é possível ouvi-la gritando “ajuda aqui” e de fato duas pessoas tomam coragem de ir ajudá-la. Mas o que revolta e infelizmente expõe esse sentimento de abutre, essa insensibilidade, são alguns homens filmando todo o ocorrido. É como se estivesse em um set de gravação, onde aquilo ali é pura encenação e não uma pessoa real prestes a ser queimada viva. Leiliane puxa os ferros retorcidos, seu desespero é nítido. O vídeo termina. O motorista foi salvo. Na delegacia, ele ainda disse que tentou ajudar o piloto do helicóptero, mas foi impedida.

Eu acho que poderia ter feito mais alguma coisa e não me deixaram. Eu devia ter corrido lá e puxado ele. Só que agora que eu estou aqui e que eu já sei que não tinha mais como tirar ele de lá, porque explodiu novamente. Eu vejo que eu podia ter morrido junto com ele”. Nesse dia Leiliane foi a super heroína de alguém. Salvou uma vida, virou o bom exemplo e comoveu muita gente. Esse vídeo não me sai da cabeça por um motivo: quem eu seria nesse vídeo? A mulher corajosa que vai em socorro do semelhante, ou o abutre que quer apenas bombar na internet?

Espero não ser covarde o suficiente para ser a segunda opção.

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