Quebre esse ciclo de ódio

Esse ciclo está matando.

Luide
Luide
15 de março de 2019

Eu tinha 22 anos. Sai de uma balada extremamente bêbado e vi alguns amigos empinando suas motos pelas ruas. Eram 4 da manhã. Resolvi que deveria fazer o mesmo, mostrar que podia. Fui pra casa, peguei a minha moto e sai. Mal conseguia parar em pé, mas estava lá, acelerando, até que bati de frente com um muro. Por pouco não perdi a vida. Até hoje me causa calafrios lembrar desse dia. O que diabos eu estava pensando? Que tragédia poderia ter acontecido? Porque esse comportamento imbecíl e pedante? O que precisava ser provado naquele momento?

Não foi só comigo. No Brasil, os acidentes no trânsito são a terceira maior causa de morte entre jovens de 15 a 25 anos. O ponto aqui? Aquilo que cada vez mais se discute, mesmo que alguns ainda considerem puro “mimimi”: a masculinidade tóxica está matando. Mulheres são as maiores vítimas, mas homens também estão morrendo. Porque um garoto de 13 anos acha que pode e deve levar uma vida de extremos? Beber como homem? Se drogar como um homem? Se comportar como um predador?

Hoje tudo em minha vida está sob uma perspectiva diferente. Desde que soube que seria pai passei a contestar ainda mais minhas atitudes e também como aquilo que faço pode influenciar aqueles ao meu redor. Em breve será minha filha em uma escola, em uma balada, em uma universidade ou em um trabalho. Qual impacto na vida dela de homens que ainda são criados como se fossem os donos do mundo? Que tudo e todos lhes devem obediência?

2019. Nós estamos discutindo se “meninos vestem azul”. Se uma criança de 3 anos pode brincar ou não com uma boneca. Se violentar uma criança com pancadas é “educar”. Se bullying forma caráter. Nós ainda estamos discutindo isso. Um ciclo nefasto que parece não se quebrar, não importa o que seja feito. É como se para cada 10 pais e mães que ensinam seus filhos a terem empatia e respeito pelo próximo, outros 100 estivessem dizendo “não leve desaforo pra casa” ou “se comporte como uma menina“.

Como pai isso me assombra. O medo de se distanciar da minha filha, de algum dia ela estiver sofrendo e eu simplesmente não saber. Porque é isso que vem acontecendo desde sempre. Pais distantes, filhos solitários. O medo de se abrir, o medo de chorar e dizer que não está nada bem. A obrigação de “orgulhar os pais“. Me assombra que um dia eu possa perder o fio da meada, e de repente, não reconhecer mais minha filha porque fechei meus olhos para o que ela sentia.

Da desespero. Fico agoniado. O que os pais dos alunos da escola da minha filha estão ensinando aos seus? Será que utopia tudo isso? A melhor educação é mesmo ensinar nossos filhos a revidar? A ser “macho”? Estou confuso. Não tem como se manter sóbrio sem muito esforço. Nós precisamos discutir isso. Muito. Discutir nas escolas, nas casas, nas igrejas, no Congresso, nos canais gigantes do Youtube, na imprensa. Onde for possível. Nós precisamos quebrar esse ciclo de ódio.

Ninguém mais pode ser vítima dele.

Converse com seus filhos.

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