Quando os filmes de Natal se tornaram tristes

Nem toda memória boa merece ser revivida.

Luide
Luide
21 de dezembro de 2017

Quando criança, o mês de dezembro era o mais esperado por mim. Era inclusive uma tradição esperar o relógio virar meia noite para o 1º de dezembro, tão especial ou mais que o 1º de janeiro. Afinal, dezembro era o mês de férias, do início do verão, da temporada de acerola nos dois pés da fruta que tinham em casa, mês de rever os amigos que vinham de longe e claro, mês dos filmes de fim de ano. Que agenda incrível para uma criança e pré-adolescente.

Acordar, sair pra rua, voltar pra almoçar e dar aquela esticada no sofá para conseguir assistir a algum clássico no Cinema Em Casa ou Sessão da Tarde. Filmes como Esqueceram de Mim ou Um Herói de Brinquedo eram praticamente parte da rotina anual de qualquer criança. E como aquilo aguçava esse tal espírito natalino. É como se ao virar do relógio, e a partir de 1º de dezembro, a vida entrasse em um estado de magia. Tudo parecia mais feliz e com um toque especial.

Até mesmo as propagandas de refrigerantes eram incríveis. Você se emocionava assistindo ao comercial de Natal da Coca-Cola.

Em algum momento as coisas mudam.

Você passa a questionar a legitimidade dessa data, a vida te enche de desilusões e certas coisas que eram incríveis começam a se tornar um fardo. Era um verão de 2012 quando resolvi tentar reerguer esse espírito natalino que tive na infância, e fazer uma maratona de filmes de Natal que toda criança deveria assistir. Do Milagre na Rua 34 a Esqueceram de Mim 2. Nada, apenas uma nostalgia pesada e difícil de digerir.

Crescer é, em grande parte, perder o poder de olhar para coisas simples e se deliciar com elas. Não é difícil encontrar nas redes sociais pessoas que transformam a noite de Natal no pior dia do ano. Precisar lidar com membros da família que se tem pouco ou quase nada de contato, dar satisfação da vida pessoal para aqueles cuja única intenção é julgar ou simplesmente a negação do convívio familiar. Aquela criança que um dia contou as horas para o Natal, hoje conta os segundos para ele acabar.

“O natal é o pior dia do ano”. Parece frase de adolescente, mas é algo que minha mãe repete exaustivamente desde 2000, quando meu pai faleceu. Antes dele, em 1998, meus avós (pais da minha mãe) faleceram. Em 1997 foi meu tio (irmão dela). Pra minha mãe que em 1996 passou uma noite de Natal ao lado de sua família, saber que quatro anos depois, 4 membros dela estariam mortos, foi um golpe. Assim há 18 anos minha família praticamente esquece dessa data. Pra mim o Natal era só mais um feriado.

Aí minha filha nasceu. E filhos são a oportunidade dos pais de refazerem parte de sua história de uma forma melhor. Penso o tempo todo no tipo de lembrança que ela gostaria de ter, e reviver esse espírito natalino é uma das minhas missões como pai. Quero que ela se encante com o tio aposentado vestido de Papai Noel e morra de rir com Esqueceram de Mim. Essas bobagens são importantes. Que ela tenha a oportunidade de sorrir antes de aprender o amargor da vida.

Quanto a mim, rever um filme nessa época se tornou triste. Nem toda memória boa merece ser revivida.

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