Quando o “mimimi” não é bem um “mimimi”

Ou "como validar um discurso idiota lá dos anos 90".

Luide
Luide
11 de dezembro de 2018

É muito comum nos sentirmos donos daquilo que amamos. Essa ideia que o produto em si e não sua mensagem é o que realmente importa, nos coloca como cães de guarda de algo que pertence a uma empresa, e por pertencer a uma emprega, não veio ao mundo para iluminar a vida de ninguém. Quer dizer, pode ter vindo com essa missão, mas não só com essa. Na maioria das vezes o lucro é o maior dos objetivos. Então se Star Wars marcou sua infância, apegue-se a mensagem do filme e lembre-se que se trata de uma franquia que a Disney irá filmar e refilmar até que seus ossos tenham virado pó.

Apegue-se ao que importa e fim. É difícil? Sim. Você se sente traído por aqueles que jurou defender? Também. Mas é fato que produtos culturais continuam sendo produtos. Ou a gente procura extrair algo, absorver e seguir, ou estamos fadados a nos tornar essa caricatura insuportável do “nerd de meia idade chorão” que a internet nos entregou em uma bandeja. Esse ser que insiste em dizer que o “mundo está chato“, “tudo é mimimi” e é sempre o primeiro a fazer uma thread desabafando sobre os traços de uma nova versão de algum desenho esquecido dos anos 80.

Mas e quando até mesmo a mensagem desse produto é apagada? É mais ou menos o que aconteceu com essa nova versão de Os Cavaleiros do Zodíaco para a Netflix. O anime é simplesmente a obra da minha vida, aquilo que mais devotei paixão na infância. Nada pode ser comparado ao meu fascínio por Shiryu, Hyoga, Shun, Ikki e o Outro. Nada. Mas assim que o remake foi anunciado, escrevi aqui para esse site dizendo que isso se tratava de uma isca nostálgica e não me afetava. Era simplesmente entender que se trata de um produto que irá voltar as prateleiras para uma nova geração se maravilhar.

É então que um erro bobo acontece e da voz ao “mimimi“, que dessa vez é algo totalmente justificável. Ao transformar o personagem Shun em mulher, a clara tentativa de criar uma atmosfera de diversidade, além de soar forçada e preguiçosa, apaga a única diversidade que existia entre os cinco protagonistas. Além do óbvio: fazer coro com aqueles que sempre zombaram que o personagem era “viadinho“.

Shun sempre foi o avesso do que se prega a todo homem. Ao invés de brigão, era pacifista. Ao invés de fingir de macho inabalável, era sensível. Ao invés de interiorizar todos os seus sentimentos, não temia ser visto como sentimental. Se hoje ainda é difícil para muitos pais dizerem um simples “eu te amo” para os filhos, imagina lá no começo da década de 90, pós “filmes de homens musculosos dando porrada” o quão tabu era pra um homem não ser essa figura do Rambo.

E o mais fascinante era que o Shun não se tratava de um “fraco”, pelo contrário, era extremamente poderoso, além de carregar o espírito de um demônio. Da pra escrever dezenas de linhas do quão simbólico isso é, mas basicamente o Shun nos mostrava um outro lado da masculinidade, aquela que não precisa ser tóxica, durona e “não leve desaforo pra casa“. Ao esquecer a importância disso, o roteiro valida o discurso de tudo isso “é coisa de mulher“. Homem que é homem chega na voadora, como o Ikki, né?

Um dia teremos maturidade para ver essa cena sem zombaria?

Falando como fã de Cavaleiros do Zodíaco pouco me importa se o anime será bom ou ruim. Não tenho tempo nem pra assistir coisas novas, quanto mais pra algo que já está muito bem guardado na minha memória afetiva. Deixa lá. Mas me incomoda que essa falsa ideia de diversidade esteja sendo usada como isca pro pessoal mais carente desse tipo de coisa. “Olhem como somos diversos!!!!“. Tá tudo errado.

Mas, paciência. Mercado. Produto. Qualquer coisa é só procurar os episódios antigos no Youtube. Tá tudo lá. Boa nostalgia.

Seja assinante e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 08/08/2019

  • Luide

Álbum ou playlist?

  • 08/07/2019

  • Luide

São e salvo e forte

  • 25/06/2019

  • Luide

Eu já cansei de qualquer diálogo