Quando foi que Los Hermanos virou banda de gente cusão?

Barba, tristeza e música.

Luide
Luide
6 de dezembro de 2018

Adolescência é uma época onde podemos ser quem quisermos, inclusive fingir que somos alguma coisa. Nesse ritual de passagem entre uma criança que precisa de colo e um adulto que precisa oferecer o colo, aproveitamos para testar algumas coisas. Cortes de cabelos que você sabe que um dia irá se arrepender ao ver fotos antigas, roupas estranhas, drogas, frequentar lugares um tanto questionáveis, ouvir todo tipo de música e se definir como membro de uma “tribo”, termo usado pelos mais velhos para nomear um monte de moleque andando em bando.

No alto dos meus 17 anos eu sentia um vazio enorme. Uma necessidade de me firmar como alguém diante da sociedade, e para isso, precisava construir um personagem. No interior onde a vida mais parecia uma filial do Texas, com o sertanejo da virada do século tocando em todos os lugares, escolhi ser o garoto roqueiro de cabelo cumprido e frases tristes no MSN. Era incrível ser aquela figura deplorável que passa mais tempo em fóruns de discussões na internet que tomando Sol.

Mas essa caricatura veio por terra quando passei a gostar de uma banda que me levou para outra caricatura. Me apaixonei por Los Hermanos em 2005. E essa sim foi uma longa paixão que até hoje me faz arrepiar quando resolvo revisitar qualquer música dos seus 4 maravilhosos álbuns lançados. Mas é engraçado ver que agora, velho e sem muita paciência pra me firmar como isso ou aquilo, Los Hermanos é uma espécie de piada entre aqueles que não gostam da banda, além de ser relacionada a gente cusão.

Acompanhei Los Hermanos mesmo após o fim da banda. Os trabalhos solos de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Instante Posterior do Bruno Medina foi o primeiro blog que li na vida. Sempre gostei desses caras, mas é fato que eles meio que materializam essa figura caricata do hipster classe média, afetado com cafés e bikes, que deixam a barba grande e “respeitam o lugar de fala“. O tipo de sujeito que nos últimos ganhou o apelido de esquerdomacho e enche o saco de mundo com seu discurso desconstruído.

Los Hermanos pode ter se tornado uma banda pra gente cusão porque a maioria dos fãs tentam emular a poesia das letras com frases cheias de senso comum. Ai ficam chatos mesmo. Eu mesmo fui e ainda sou assim, buscando por uma profundida no que escrevo, afinal de contas, por qual outro motivo estaria escrevendo em pleno 2018?

Aos 31 anos ouvir Los Hermanos ainda mexe comigo. Muito. Posso ter perdido um pouco daquela esperança juvenil, mas a instabilidade emocional é a mesma dos 17. Afinal de contas, faço parte dessa maravilhosa geração que se recusa a crescer e nada melhor pra corar isso que algumas músicas tristes. Realmente não me importo que Los Hermanos tenha essa associação a gente cusão, talvez eu seja um baita de um cusão e por isso gosto tanto deles.

Em 2019 estarei lá pedindo por “Conversa de botas batidas“.

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