Por que eu não consegui continuar assistindo a Making a Murderer

Documentário no Netflix é ótimo, mas requer um estômago forte para ser consumido

Luide
Luide
8 de janeiro de 2016

Boas séries são aquelas que de certa forma criam alegorias com o nosso cotidiano. Mesmo que Walter White seja um humano impossível, Breaking Bad fala muito sobre nosso lado egoísta, sobre frustrações e como alguém pode ser quebrado pelo meio onde vive ou usar isso como empurrão para aflorar seu lado mal.

Black Mirror é outro exemplo de série absurdamente real, mesmo com seu futuro/presente distópico, a obra de Charlie Brooker é assustadoramente sobre nosso dia dia como sociedade. Mas mesmo que esse flerte com o realismo seja algo necessário e muito bem digerido, não conseguir seguir assistindo a Making a Murderer, nova série documental do Netflix que causou um alvoroço nos EUA no fim de ano e agora começa a criar o mesmo por aqui.

O problema de Making a Murderer não é ser baseada em fatos reais, o problema é balde cheio do pior do ser humano despejado em nossa cara. Talvez um “soco no estômago” não seja a definição correta, está mais para alguém dizendo “olha… isso é o ser humano, senta aí que vou te mostrar 10 horas disso

Making a Murderer segue durante essas 10 horas mostrando o caso de Steven Avery, acusado injustamente por estupro e que ficou preso durante 18 anos, e graças a um teste de DNA conseguiu sua liberdade. Porém pouco tempo depois acabou sendo novamente preso, dessa vez acusado de assassinato, porém nas mesmas situações duvidosas que o levou a ser preso em 1985.

A narrativa da série serve muito bem para criar tensão e expectativa a respeito do caso de Avery, é comum o espectador se sentir em uma montanha russa de certezas, afinal, as reviravoltas do caso são tão inacreditáveis que nem mesmo o melhor roteirista conseguiria criar tantos plots twists em tão pouco tempo.

Acompanhar a saga de Avery é terrível justamente pela sensação de estarmos diante de um inocente, e claro, a edição constrói esse sentimento já que em alguns momentos a esperança parece ter sido perdida, para logo em seguida voltar com toda a força. No meio disso está a família de Steve e como dói ver o depoimento de revolta do pai e de dor da mãe. Steven Avery não foi o único que teve a vida despedaçada, a liberdade de sua família também foi tirada. A liberdade de sorrir, de sonhar, de deitar a cabeça no travesseiro e imaginar que o dia de amanhã pode ser melhor.

Se a série é tendenciosa nesse sentido vai do julgamento de cada um, mas em alguns momentos a certeza de que Steven é apenas uma vítima de um sistema opressor é tão grande que fiquei até com nojo de seguir assistindo. Mas não foi isso que me fez desistir de ver Making a Murderer no meio do quarto episódio…

A série realmente começou a me afetar em um nível inacreditável, afinal, não estamos falando de ficção onde um final feliz pode, quem sabe, acontecer. Estamos falando de pessoas reais com sua dor exposta em uma tela para ser consumida. O que eu poderia fazer além de sentir pena? Nada.

Então quando o sobrinho de Steven, Brendan entra em jogo, tive que jogar a toalha. A maneira como a série conduziu e o apresentou como uma vítima ainda maior que Steven me revirou ao meio, e a gota d’água foi a conversa entre ele e a mãe pelo telefone, onde o garoto diz que o advogado gosta de gatos assim como ele. Parei, respirei e desisti. Não deu, ali foi forte demais. Era um garoto prestes a perder toda sua juventude, mas mesmo assim, com uma inocência gritante ao falar com a mãe.

O Netflix foi corajoso em trazer Making a Murderer para o seu catálogo, e o barulho que a série causou foi algo incrível, com uma petição chegando até mesmo nas mãos de Obama. Que essa dor possa se transformar em algo. E que bom que muitas pessoas tiveram essa coragem de assistir, porque eu não tive.

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