Pode fazer essa piada aqui?

Sabe essa frente de "da pra fazer humor sem ofender ninguém"? Dave Chappelle parece não se importar com ela.

Luide
Luide
9 de setembro de 2019

23% de aprovação: foi assim que a crítica americana recebeu o novo especial de comédia de Dave Chappelle na Netflix. Com uma pontuação digna dos filmes da DC, o humorista claramente desagradou boa parte da imprensa especializada. No twitter não é difícil encontrar comentários dizendo que se trata de uma obra que agride determinadas minorias, onde muitos relatam terem ficado “com nojo”.

Mas o fato é que quando a avaliação abriu para o público geral, a aprovação é de 99%. Mais um desses casos onde crítica e público divergem. O motivo? Simples: expectativa.

A crítica se acostumou a ver obras que se moldam as expectativas (muitas honestas) de uma ala progressista da cultura do entretenimento. Só que Dave Chappelle não se importa tanto assim com essas regras não escritas. Pode se fazer piada com isso? Bom, vamos fazê-la e depois a gente vê no que vai dar. E deu no que deu: um dos melhores especiais de comédia de 2019.

Ao contrário de muitos, não acho que o humor esteja acima do bem e do mal e que humoristas são seres intocáveis. No twitter, por exemplo, é possível encontrar diversos comediantes de stand-up revoltados que parte do público não aceita piada com esse ou aquele político. “Como assim você não vai rir da minha piada? É piada! Tem que rir!“. Tem não.

Na mesma forma que você tem o direito para contar uma piada, as pessoas tem de ficarem ofendidas. É mais simples do que se imagina. Funciona em todos os gêneros da arte, seja música, pintura, cinema… as pessoas se ofendem e é um direito delas. Portanto, quando Dave Chappelle sobe no palco e faz piadas sobre Michael Jackson, feminismo e movimento LGBT, ele está ciente do seu direito de fazer essas piadas e também que muita, mas muita gente irá odiar. É do jogo.

Cabe a um humorista fazer essa piada ou não? Quem decide isso? Cabe a nós criarmos uma patrulha? Cabe ao Estado o poder de censura? O mesmo Estado que manda recolher hqs por “conteúdo impróprio”? Vamos confiar neles? Eu não confio.

O fato é que Sticks & Stones é tão provocador, tão fora da curva do que estamos acostumados (“ah, da pra fazer humor sem ofender pessoas”) que fui pego de surpresa. Fui totalmente desarmado pelas piadas e ri, ri de uma maneira que há muito não ria (talvez desde o especial de comédia do Adam Sandler). Me senti meio péssimo quando ri das piadas sobre os abusos de Michael Jackson? Claro que sim, mas não vou mentir: eu ri demais.

O mundo só está chato para quem não tem talento e muito menos coragem. As piadas de Dave Chappelle não são engraçadas porque são “humor negro”, mas sim porque são boas. O fato delas pegaram pesado acaba ficando em segundo, terceiro plano. Não sou eu quem irá dizer quais piadas Chappelle deve ou não fazer, da mesma forma que não admito que humorista nenhum diga com o que eu deva ou não me ofender.

Liberdade é uma via de mão dupla, tem que saber navegar.

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