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Peço desculpas a todos os cinéfilos: mas eu pauso filmes

É o que da pra fazer.

Por Luide
28 de janeiro de 2020

Pablo Villaça, enquanto crítico de cinema e apaixonado pela arte, estava corretíssimo em afirmar que a melhor experiência possível para assistir O Irlandês é fazendo isso sem pausas. De fato, cinema é isso: você entra na sala e só sai quando acaba, não usa celular e muito menos conversa ou comenta o que está assistindo (isso, claro, se você for uma pessoa com o mínimo de respeito).

Mas agora você pode assistir a lançamentos em sua casa, no conforto do sofá e pode fazer o que quiser sem ser julgado.

E dado esse novo contexto social, como fica a tal “experiência” de assistir um filme? Arruinada? Porque seja sincero: eu sei que você da uma pausa para ver o celular ou ir até a cozinha pegar alguma coisa pra comer. Ou ir ao banheiro. Ou atender o interfone. Ou dormir. Coisas que podem acontecer quando se assiste a filmes onde ninguém pode mandar um sonoro “xiiiu“.

Confesso que sempre tive vergonha de pausar um filme. Me sentia mal, cuspindo em todo legado da sétima arte. Mas às vezes, o sono batia ou eu tinha apenas 60 minutos livres do meu dia para assistir a um filme de 180 minutos. O que fazer? Não assistir ou assistir aos poucos? É cinema, p#rra! Tem que ter a experiência completa, Martin Scorsese não rejuvenesceu o De Niro pra você ir pra cama mais cedo ou responder o zap.

A grande verdade é que poder pausar ou assistir filmes de maneira fragmentada foi o que me permitiu consumir mais cinema desde que minha filha nasceu. Minha pequena desconhece essas regras não escritas e portanto, se ela achar que durante uma cena tensa de O Irlandês eu preciso ajudá-la a dar comidinha pra alguma boneca, terei que ajudar. Além do mais, a rotina adulta não é improvisada, mas um roteiro escrito e pouco maleável. Você sabe dos seus limites em relação ao tempo, então, tenta o máximo possível encaixar alguma coisa nesses espaços vazios.

Durante muito tempo as séries foram minha principal companhia já que era possível assistir a pelo menos um episódio de no máximo uma hora de duração. Até que precisei encarar alguns demônios do passado e finalmente me despir de qualquer compromisso com a sétima arte: agora me transformei nesse monstro que pausa filmes. Peço desculpas a todos os cinéfilos que podem se sentir ofendidos, mas agora, pausar um filme para fazer JANTA me é tão comum quanto um novo blockbuster da Marvel.

Agora vem a pergunta: existem meios morais de se pausar um filme? Existe uma forma menos ofensiva? No twitter, um corajoso rapaz, criou uma espécie de PAUSA SEGURA com O Irlandês: ele dividiu o filme em atos imaginários onde seria possível ter a sensação de estar assistindo a uma série. Desde então, ao desligar a tv para realizar outras tarefas, tento fazer isso em algum momento que me parece oportuno, quando tenho aquela leve impressão que o filme fará a famosa “pausa para respirar”.

Nunca vi tantos filmes como agora, já que assumi esse meu lado desrespeitoso. Que os espíritos dos irmãos Lumière não venham me encher o saco na madrugada. É o que da pra fazer.