Pablo Escobar: o caminho do mal é o pior possível

Maus exemplos são necessários

Luide
Luide
8 de setembro de 2016

O cinema explorou a figura do vilão com um certo romantismo, o que resultou em um bom número de fãs. Ícones como Don Corleone ou Darth Vader são exemplos máximos desse trabalho cuidadoso em criar uma espécie de empatia com personagens que, a grosso modo, são maus. E ponto final. Mas como eram figuras imponentes e com bom apelo visual, a paixão do espectador vinha mais pelo que o personagem representa dentro do contexto geral do que por suas ações. Resumindo, você não gosta do Darth Vader porque ele mata pessoas, mas sim porque ele é o Darth Vader de Star Wars.

Dramas modernos perceberam esse apreço por vilões e tentaram entender melhor esse sentimento, e principalmente, explorá-lo até o limite. Não canso de citar Sopranos quando falo sobre origem das narrativas dramáticas, pois a série de David Chase é de fato o início de tudo. Quando a HBO ousou colocar em sua programação um mafioso como protagonista foi um tiro no escuro. Tudo bem você aceitar Tommy Devito massacrando pessoas durante as 3hrs de Os Bons Companheiros, mas Tony Soprano fazendo o mesmo dentro de sua sala semanalmente?

No fim deu certo. Aliás, deu muito certo e Sopranos virou a base do que viria a ser a Terceira Era de Ouro da televisão. Dali pra frente muitos dramas iriam se inspirar na ideia de colocar como protagonista um homem de caráter duvidoso e estranhas noções morais. Vieram professores de química, serial killers, congressistas e por fim, a Netflix deu espaço para o mais lendário traficante que o mundo já viu. Era a vez de testar todos os limites do fascínio do público por vilões.

A diferença aqui é que Pablo Escobar existiu, por isso um cuidado ainda maior deveria ser tomado. Era preciso contar sua história sem dar ao personagem a sua “versão dos fatos“, e com isso dar a entender que Narcos justificou seus atos. Afinal, é exatamente isso que as grandes séries fazem o tempo. Não que as ações de Walter White sejam aceitáveis, mas Breaking Bad problematiza essas tais “razões” que levaram um pai de família a se tornar um assassino.

Em Narcos poderia soar como defesa de Escobar. “Veja bem, ele explodiu esse avião porque provocaram“. E nesse aspecto a série se sai bem. O tempo todo Escobar é posto como um monstro sem alma e razão, um animal insano pronto para devorar a todos que ousarem cruzar seu caminho. Porém, mesmo o mais destrutivo dos homens, ainda possui laços, e o foco na família de Pablo Escobar nesse segundo ano não foi gratuito.

O objetivo, portanto, era mostrar que nem mesmo as pessoas que Pablo Escobar dizia amar escapariam de suas atrocidades. O tempo todo a série faz questão de destacar a prisão que mãe, esposa e filhos eram condicionados. Mesmo com rios de dinheiro, as crianças foram obrigadas a crescer em meio a homens armados, a esposa não podia se dar ao luxo de ostentar os milhões, e para a mãe, uma simples ida a igreja resultava em problemas extremos. Narcos conseguiu equilibrar o ponto de vista de Pablo dentro da série.

 Narcos, Season 2 (2016)

Mostrar o mal serve para nos alertar sobre a falta do bem. Olhar o quão miserável pode ser a vida de um homem que escolhe o caminho da maldade é um sopro de alívio para aqueles que escolhem a honestidade, o amor e o bem. É por isso que vilões, e principalmente essa nova onda de “anti-heróis“, são importantes para a cultura pop. Precisamos de bons exemplos, mas também dos maus.

No fim, todo o dinheiro do mundo não impediu uma morte vergonhosa. Pablo não se tornou mártir, morreu descalços, despedido de todo seu orgulho. Foi um monstro, morreu como um verme. Narcos aproveitou sua figura imponente, e mesmo que Wagner Moura não deu ao personagem outra imagem a não ser a melancólica, ainda assim o resultado final foi competente.

O mal ainda existe e está lá fora. E se você não entendeu o quanto ele é prejudicial, volte e assista Narcos outra vez.

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