Oscar e a “lacração” que não da audiência

Por que a representatividade incomoda tanto?

Luide
Luide
6 de março de 2018

O Oscar é mais do que um evento de premiação da elite de Hollywood. É uma vitrine, uma forma de mostrar ao mundo como ele vem sendo retratado nos cinemas. Mas esse reflexo por décadas não acontecia. Muitas pessoas não se sentiam representadas com filmes que simplesmente não se comunicavam com sua realidade. Mas isso é lá problema do cinema? Mas é claro que é. Negar ao cinema seu papel social é reduzi-lo a entretenimento raso, coisa que cineasta algum gostaria de resumir sua obra. Ao menos os melhores.

Em 2018 o Oscar completou 90 anos, e como toda e qualquer instituição está se mexendo para não se tornar obsoleta, e uma de suas frentes é entender que o mundo de hoje não é o de 1929. Os EUA não é um país só de brancos, mas também de negros, latinos e imigrantes. Então não faz sentido uma de suas premiações mais importantes ter apenas uma cor e gênero. Sempre vão bater na tecla de merecimento, como se o Oscar fosse sobre isso, mas quando vamos aos números, fica evidente que algo obscuro existia e que impedia que essa diversidade fosse aceita de forma natural: por exemplo, apenas em 2014 um cineasta negro venceu o Oscar de Melhor Filme (Steve McQueen por 12 Anos de Escravidão).

Depois de campanhas e muito barulho, a Academia resolveu se abrir e partiu em busca de aumentar seu leque de votantes, com pessoas mais jovens e de diferentes países. O resultado veio já em 2017, com muitos filmes dirigidos, escritos e protagonizados por negros, latinos e LGTBs entre os indicados. Moonlight vencer na categoria principal de Melhor Filme naquele ano foi um exemplo de como o tal do merecimento e diversidade podem caminhar lado a lado.

Veio 2018 e Oscar continuou se provando como um ambiente que busca entender o mundo. E vai continuar tentando entender, porque é assim que as coisas são, não da mais pra fechar os olhos e fingir que tudo funciona em perfeita harmonia e que não existe luta por igualdade. Mas aí entra em cena o personagem mais insuportável que a internet deu vida nos últimos anos: o “anti-lacre”.

A notícia que o Oscar teve recorde negativo de audiência em 2018 era tão previsível que tuitei sobre isso três dias antes. Sabe porque é previsível? Porque a audiência a televisão como um todo vem sofrendo baixas. As pessoas estão abandonando a televisão e não há nada que se possa fazer, o desinteresse é geral. Mas o que o anti-lacre espertinho de meia idade e solitário aproveita para fazer? Começar seu discurso que igualdade e representatividade é “lacre” e por isso a audiência vem caindo.

Mas acontece que em 2017 o Oscar também teve recorde de baixa audiência. E em 2016. E em 2015. E se você criar um gráfico, vai perceber que, com raras exceções, ano após isso vem acontecendo e vai continuar acontecendo. E não é só o Oscar que sofre com baixas de audiência, é o Grammy, o Emmy, o Globo de Ouro, The Walking Dead, a NFL, a novela das 9. A geração que tinha a televisão como o principal canal de entretenimento está morrendo.

O que incomoda nessa história é ver que o Oscar, um senhor de 90 anos, vem tentando se abrir para todos esses movimentos, se renovar, não ficar pra história. O Oscar consegue, mas o tuiteiro anti-lacre não. Ele não suporta a ideia de que o mundo não corresponde mais as suas expectativas de como ele deve ser. Ele não consegue ver um negro apresentando o prêmio sem considerar aquilo uma “lacrada”. Ele considera Get Out racismo com brancos.

No fim das contas o Oscar vai se renovando, vai continuar sofrendo com a baixa audiência por ser um programa antiquado de 5 horas de duração. Mas o anti-lacre… ele sim vai se tornar obsoleto.

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