Melancólica e humana: conheça os verdadeiros detetives de The Killing

Uma verdadeira aula de como fazer uma série investigativa sem apelar pra casinhos da semana

Luide
Luide
20 de maio de 2016

Boa parte do público nunca suportou assistir The Wire porque, segundo eles, a era “muito parado“. É até fácil entender esse tipo de comentário, afinal, séries policiais sempre entregavam o mesmo tipo de espetáculo: casos semanais envolvendo assassinos espalhafatosos e detetives geniais que com apenas um olhar descobriam até a origem da terra na pata da mosca.

O fato de The Wire estrear em 2002 logo após os atentados de 11 de setembro não ajudou nessa conquista de público. Na época os policiais precisavam ser retratados como esses heróis incorruptíveis, sérios, dotados de uma inteligência superior os demais, fortes e combatentes. Já na série de David Simon reinava algo chamado realismo e seus policiais, detetives e afins eram seres humanos normais, com suas nuances de personalidade, presenteados com problemas que eu, você e seu vizinho possuímos.

Então o tal “nada acontecia” na série era simplesmente uma investigação sem grandes revelações, explosões ou prisões. Tudo sendo contado de uma maneira lenta (lembrando sempre que série lenta é diferente de série arrastada). Anos depois chega a ser triste ver que The Wire não influenciou tanto assim as séries do gênero e volta e meia somos presentados com alguma coisa do tipo envolvendo agentes do FBI lindos, sarados e inteligentes.

De bobeira durante minha licença paternidade e depois da maravilhosa season finale da segunda temporada de Hannibal, resolvi garimpar o catálogo do Netflix e cai em The Killing. Ouvi falar muito pouco da série, sabia que a AMC largou mão na segunda temporada e o Netflix garantiu mais duas. Sabia também que tinha o menino do Robocop como um dos detetives e o Nic Pizzolatto de True Detective escreveu seus primeiros roteiros ali.

Comecei The Killing. E que série maravilhosa!

Chega a ser estranho sair de Hannibal onde temos o Will Graham com seus super poderes de empatia, legistas mais rápidos que o Flash e Baltimore com uma quantidade conveniente de serial killers, e partir pra The Killing onde a dupla de protagonistas bate cabeça episódio atrás de episódio pra resolver um único assassinato.

Um único, mas um importante assassinato e aqui recebe o devido peso. Ora, quando alguém morre existe uma família em luto, existem responsáveis, existem os motivos. Não é simplesmente ir matando pessoas pra dar ritmo a série. Em The Killing a morte de Rosie Larsen tem impacto de verdade e nós sentimos tudo isso ao longo da primeira e excelente temporada.

A ausência de luto nessas séries onde um corpo aparece a cada minuto chega a ser ofensivo. Em The Killing a família Larsen passa por um verdadeiro calvário depois da morte da primogênita. A melancolia e desesperança dão um clima perfeito pra série. Aliás The Killing é um desses poucos exemplos que usam a cidade a seu favor. Assim como Breaking Bad jamais seria a mesma sem AlbuquerqueSeattle é praticamente um personagem que respira. Conhecida como a cidade onde mais chove nos EUA, o clima triste que as gotas carregam se encaixam de forma brilhante dentro da narrativa.

A falta de Sol tira a luz daquelas pessoas. É como se toda cidade estivesse de luto e a dor da Família Larsen caísse sobre seus habitantes. Todos são culpados. Então The Killing parte pra uma investigação onde a solução do crime é segundo plano, o que importa são seus personagens. Os investigadores e os investigados. Está mais do que claro que Nic Pizzolatto bebeu muito aqui pra criar True Detective. Em alguns aspectos as semelhanças são gritantes.

The Killing (primeira temporada)

Mireille Enos e Joel Kinnaman dão uma dinâmica perfeita para seus personagens Sarah Linden e Stephen Holder. Longe de estereótipos e fórmulas básicas, a dupla de detetives encanta pela humanidade. Errando aqui, acertando ali, The Killing consegue manter a tensão no ar sem recorrer para o procedural. Ao invés de criar assassinatos semanais, a série parte do princípio básico de que todos são culpados até que se prove o contrário.

Assim a primeira temporada vai destrinchando a vida de cada um do círculo familiar e social de Rosie Larsen. Do professor ao pai, The Killing vai nos contando histórias pessoais enquanto deixa a solução do crime como background. No centro disso tudo estão Linden e Holder formando uma ótima e criativa dupla. Longe das filosofias de Rust e agressividade de Marty em True Detective, ambos apresentam uma personalidade bastante palpável.

Linden é basicamente aquela fórmula do homem difícil mais uma vez mostrando que na verdade não existe gênero para ela. Com problemas em casa e completamente dependente do que faz, Liden vive o drama de quem encontra no trabalho uma válvula de escape para as relações pessoais. Já Holder é um canastrão que carrega uma boa dose de humor negro consigo. A interação de ambos é uma crescente que facilmente te pega nos primeiros episódios.

Melancólica, triste, mas humana, The Killing é um bom exemplo de como as coisas pode funcionar bem onde geralmente se erra muito. Um grande achado. Que venha a segunda temporada.

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