O sonho ficou mais acessível

A internet quebrando barreiras.

Luide
Luide
2 de setembro de 2019

Na música “Tô ouvindo alguém em chamar“, Mano Brown narra a história de Guina, personagem folclórico do Racionais MC’s. Em um primeiro momento ele apresenta o criminoso como alguém sem escrúpulo, destemido e que não poupava ninguém. Mas logo em seguida passa a descrever a infância difícil de Guina, em uma virada de narrativa genial que somente um dos maiores letristas do Brasil é capaz de fazer.

“Lembro que um dia o Guina me falou.
Que não sabia bem o que era amor.
Falava quando era criança.
Uma mistura de ódio, frustração e dor.
De como era humilhante ir pra escola.
Usando a roupa dada de esmola.
De ter um pai inútil, digno de dó.
Mais um bêbado, filho da puta e só.
Sempre a mesma merda, todo dia igual
Sem feliz aniversário, Páscoa ou Natal”

Em momento algum Mano Brown tenta justificar as ações de Guina, apenas aponta que aquela criança que desde seu primeiro dia de vida teve a violência como regra, acabou se tornando parte dela. Após prestar vestibular em um assalto no ônibus e se formar ladrão roubando um banco, Guina finalmente não se sentia mais inferior. O mais interessante, porém, é notar como Guina é descrito logo em seguida: alguém com espírito de liderança que poderia ocupar um alto cargo em alguma empresa. Mas infelizmente o crime foi o único lugar onde esse “talento” encontrou vez.

Não é ficção. No Brasil milhares de crianças tem seus sonhos podados ainda na infância. O descaso e a violência do Estado, o racismo estrutural e a opressão para com quem habita as periferias dos grandes centros, obliteram diariamente dezenas de Bill Gates, Steve Jobs, Elon Musk e por ai vai. E não estou falando de trocar uma carreira de sucesso pelo crime, longe disso. Mas um garoto genial pode simplesmente acabar em um emprego que ele odeia simplesmente porque precisou trabalhar desde muito cedo para poder comer. O sonho muitas vezes não chega além dos mais bairros mais nobres.

Assistindo Sintonia, a nova série da Netflix idealizada por Kondzilla, me peguei pensando que a internet talvez possa ter encontrado uma forma de burlar esse muro que impede que sonhadores ganhem o mundo. Logo no início somos apresentados ao personagem Doni, um garoto talentoso que quer viver de sua arte. Na casa de um amigo, ele usa seu celular para gravar um vídeo e espalhar sua nova música. É assim que sua jornada pela série começa.

Não muito tempo atrás, esse mesmo garoto precisaria ter algum contato na grande indústria, algum padrinho, até que sua música pudesse chegar até os ouvidos da multidão. Hoje não mais. É claro que o monopólio ainda é gigantesco, mas com um celular na mão, acesso a internet e uma conta no Youtube, qualquer um pode fazer o seu som chegar até milhões de pessoas. Ou bilhão, como a história do MC Fioti e seu “bumbum tam tam“, que nas mãos do mesmo Kondizlla, se tornou o primeiro clipe brasileiro a atingir 1 bilhão de views.

Mas antes de chegar no Kondizilla, Fioti produziu a música em sua própria casa, após descobrir a flauta de Bach em uma busca pela internet. E foi assim que um sonho que provavelmente iria necessitar de muita sorte e padrinhos, ganhou o mundo graças a uma conexão. E ganhou mesmo.

Mesmo assim ainda estamos longe de uma democratização da internet. A mesma São Paulo que serve de cenário para Sintonia ainda possuiu pontos “cegos”: locais sem conexão móvel. Além disso, em um país onde equipamentos são caríssimos, quem tem acesso a um bom celular, computador, câmera e outras traquinagens, obviamente larga na frente. E por fim, a forma quase exótica que ainda lidam a cultura periférica, em um bizarro fetiche com tudo que vem de lá.

O problema é que pra um sonhador isso é o de menos. Ele sempre enfrentou barreiras e sempre as destruiu. Uma a mais não fará diferença.

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