O que explica o sucesso de algo tão bobo quanto Ordem na casa?

Dobre suas camisas.

Luide
Luide
15 de janeiro de 2019

Mas tem na Netflix?” se tornou a resposta padrão pra qualquer indicação de filme ou série. E entender os motivos que levam o serviço de streaming a esse nível de sucesso é entender o atual momento que a cultura pop e o entretenimento como um todo vivem. Afinal de contas, como o público se tornou tão obcecado por absolutamente tudo que aparece no catálogo da Netflix? E como produções sem grandes pretensões caem no gosto popular e se transformam em pequenos fenômenos passageiros?

Nos últimos anos meu interesse pela Netflix mudou de foco. Lá em 2013 quando House Of Cards e Orange Is The New Black estrearam, aguardava ansioso pelas próximas produções. Parecia existir ali um cuidado, uma forma de criar e fazer diferente. Já hoje em dia fico mais tempo teorizando sobre os motivos que levam séries como Ordem Na Casa serem abraçadas pelo público do que consumindo esses produtos em si. Mas pelo menos um episódio é preciso assistir…

Em se tratando de forma e conteúdo, Ordem Na Casa não trás absolutamente nada de novo. Nada mesmo. A série usa e abusa de todas as regrinhas do gênero para criar um programa bastante simplório. Um guru vem até uma casa tomada pelo caos e após alguns ensinamentos deixa seus novos discípulos se virando sozinhos. Ele retorna para conferir o resultado que quase sempre é satisfatório. Lágrimas encerram o arco narrativo. Em Ordem Na Casa é exatamente isso o que acontece. É tipo uma Super Nanny para adultos compulsivos.

Parte do sucesso do programa se deve a uma estratégia bastante efetiva da Netflix em apostar em nichos. De produções indianas, animes e séries alemãs, o serviço de streaming nunca se limitou aos EUA como provedor de conteúdo. E apesar de não parecer, Ordem Na Casa parte desse mesmo princípio: agradar um determinado nicho e deixá-los apaixonados a ponto de fazerem toda a publicidade inicial. E qual nicho seria esse? Os fãs de Marie Kondo.

A escritora japonesa é um sucesso. São mais de 7 milhões de livros vendidos em mais de 40 idiomas. Qualquer assinante da Netflix que já tenha sido impactado pela obra da especialista em organização pessoal dará play em seu programa. Em seguida, se tornará um outdoor ambulante da série ao falar sobre ela em todos os lugares possíveis. Isso cria a segunda onda de espectadores, aquela dos curiosos que estão sempre em busca de um novo entretenimento. Mas em meio a tanta coisa pra se assistir, essa série já chega validada pela primeira onda.

Agora temos um bom número de pessoas comentando de forma orgânica sobre uma produção nada criativa. O algoritmo das bolhas de internet é acionado pela primeira vez.

Por fim, chegamos a terceira onda: aquela massa que não aceita ficar de fora das discussões, dos memes e das opiniões acertadas. Essa terceira onda é a maior de todas e fará com que a série em questão seja finalmente alavancada pelos tais algoritmos. Pronto. A Netflix conseguiu de novo e nem precisou se esforçar tanto assim.

E tudo isso graças a uma mulher que te ensina a dobrar camisetas. Francamente, como odiar a Netflix?

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