O que aprendi quando resolvi passar mais tempo na cozinha

Levando a série Cooked pro meu dia-dia

Luide
Luide
21 de junho de 2016

quando meu pai matava um boi, a gente pegava o suficiente pra nós e dividíamos com os vizinhos. E quando um vizinho matava um boi, ele fazia o mesmo, assim, sempre tínhamos carne” disse minha mãe enquanto conversávamos sobre como era a vida dela antes da industrialização pesada dos alimentos chegar lá no interior. “a única coisa que me pai comprava era um saco de sal e outro de açúcar, o resto era tudo do sítio ou alguma troca com vizinhos e amigos“.

Naquela manhã de domingo eu estava tentando pela primeira vez fazer pão. Um pouco de farinha, água, ovos e muita, mas muita sova.  Algumas horas no sol pra massa crescer, alguns minutos no forno e pronto, lá estava o pão quentinho que eu mesmo fiz. Uma sensação de orgulho tomou conta, e por mais delicioso que aquele pão era com manteiga derretida, nada era melhor do que essa pequena vitória.

Fazer o próprio pão ao invés de correr no supermercado e comprar pronto, não é apenas uma tarefa divertida. É algo com raízes poderosas e naquelas horas que passei ao lado da minha mãe, pude entender de fato o que significa se reaproximar dos alimentos. Experiência que resolvi testar após assistir Cooked, série do Netflix que mexeu completamente comigo. Era hora de colocar a preguiça de lado e botar a mão na massa.

Cooked é TUDO que acredito em cultura pop: bem feito e que influencia diretamente sua maneira de pensar

Decidi que iria substituir três alimentos que consumo constantemente e só compro prontos, pela minha própria versão. Os escolhidos foram molho de tomate, pão e macarrão. Minha missão não era apenas consumir menos química ou economizar dinheiro, era redescobrir minha relação com os alimentos e o que vem acompanhado com isso.

Cooked foi total inspiração. São 4 excelentes episódios mostrando o que há por trás da industria dos alimentos e como o tempo todo somos levados a acreditar que cozinhar é perda de tempo, difícil ou você simplesmente jamais irá fazer coisas tão bonitas quanto aqueles pratos da tv. Programas de culinária mais distanciam você do alimento que aproximam, o astro é sempre o apresentador(a), todo charmoso, engraçadinho, criando receitas mirabolantes. E você ali sentado, provavelmente comendo um salgadinho ou esperando o delivery.

Programas como Master Chef chegam a durar quase três horas e durante esse período, é possível notar a quantidade de pessoas que preferem comentar sobre a comida alheia do que cozinhar a própria. É a lógica por trás desse distanciamento: quanto mais você deixar de cozinhar e precisar comprar tudo pronto, ou pagar pra alguém cozinhar pra você, melhor pra indústria.

Mas qual o problema disso tudo afinal? Óh, estamos sendo engolidos por um sistema malvado que deseja nos tornar escravos? É a visão mais acalorada, mas pra mim existe outro significado. Deixar de cozinhar não significa apenas consumir mais produtos processados, turbinados de sódio ou açúcares, mas sim deixar de ter com sua família momentos de convivência. Desde os tempos bíblicos, a ideia de partilhar o pão era algo maior do que simplesmente todos de barriga cheia. Significava a união, a empatia, a troca de carinho.

Durante as horas que conversei com minha mãe sobre sua infância enquanto sovava meu pão, não estávamos apenas falando sobre comida. Era mãe e filho conversando, estreitando laços, transmitindo experiências, absorvendo cada momento. Desde uma pequena pausa para ferver a água para o café até a preparação de um almoço para toda família, esses momentos de união que cozinhar promovem não devem ser vistos como algo trabalhoso. A desculpa “porque a gente precisa cozinhar se podemos sair pra comer fora?” deveria ser descartada pra sempre.

Aprendi a fazer um delicioso molho de tomate usando apenas azeite, alho, cebola, tomate e manjericão. Aprendi a fazer um macarrão leve com farinha e ovos. Meu pão? Minha nova paixão. Farinha, manteiga, ovos, leite morno. O trabalho? Que trabalho? Enquanto cozinho deixo minha filha perto de mim, a Camila é usada como cobaia para testes. Praticamente tripliquei o tempo que passo cozinhando, deixamos de comer muita porcaria enlatada e economizamos com restaurantes.

No fim, o que aprendi passando mais tempo na cozinha foi que posso passar menos tempo olhando o celular ou grudado na televisão. Aprendi que posso ouvir histórias enquanto corto cebola. Aprendi que posso melhorar minha alimentação. Aprendi que posso ficar mais próximo de quem amo.

quando você voltar vamos aprender a fazer manteiga pra comer com esse pão, minha mãe tinha uma receita” disse minha mãe. De vó para mãe, de mãe para filho. Um dia a Alice, minha filha, irá aprender tudo isso. E vai ouvir histórias da bisavó que não conheceu, da sua vózinha, e de seu pai. Um dia vamos fazer pão e ela irá ouvir mais histórias.

Será divertido…

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