O privilégio de escolher não ter coisas

O tal do minimalismo como resposta.

Luide
Luide
10 de julho de 2019

Sempre que possível minha mãe repete uma frase de meu falecido avô: “eu só peço que Deus me de apetite e sono“. Para ela, uma vida plena é gozar de boa saúde. Você se alimentando bem e dormindo uma boa noite eram o suficiente. Concordo com ela. Pra mim que sofre de insônia desde moleque, dormir 8 horas é praticamente uma benção dos céus. Acordar de manhã e saber que não tive crises é simplesmente maravilhoso. Poderia chamar minha mãe e avô de “minimalistas”, já que segundo o documentário “Minimalism: A Documentary About the Important Things” eles aprenderam a valorizar “as coisas boas da vida”. Uma bobagem, claro.

A diferença entre minha mãe e as pessoas apresentadas nesse documentário, é que a primeira sempre entendeu que uma boa vida não tem associação direta ao consumo exagerado. O segundo se transformou em uma espécie de obcecado em não ter coisas. E poder escolher não ter coisas é um privilégio que quem adotou pra si o tal do minimalismo parece não entender muito bem.

The Minimalist começa problemático. Ao tentar elaborar um raciocínio incrível mostrando que comprar coisas é a maior causa de gente infeliz, o documentário exibe imagens da Black Friday americana, aquela clássica cena de pessoas entrando correndo dentro de lojas para comprar algum eletrodoméstico ou eletrônico com algum desconto. Acontece que pra muita gente que está ali, é a única oportunidade de finalmente ter uma TV na sala. Ou um microondas na cozinha. Quem pode comprar esses aparelhos em qualquer momento do ano certamente ri daquelas pessoas se espremendo para realizar o sonho de ter uma lava roupas.

São coisas do mundo moderno, não da pra negar. O classe média que vive nos grandes centros urbanos é afetado com sua própria condição. Tenta o tempo todo se desculpar por ter acesso a coisas caras e desenvolve um certo fetiche com a pobreza ou com uma vida longe da tecnologia. Em pleno 2019 as pessoas ainda discutem vícios em celulares e criam essa fantasia de morar em um lugar sem 4G, como uma espécie de detox. Enquanto isso, alguns bairros de periferia na maior cidade do país sofrem com a falta de sinal telefônico.

Essa constante busca por um responsável pelo vazio existencial, pelas noites solitárias assistindo sitcons da década de 90 pela centésima vez, tudo isso gera esses conflitos geracionais. É um tanto óbvio que você não precisa trocar de aparelho celular todo ano e muito menos seu guarda roupa a cada estação. Mas é preciso ter a noção básica que não fazer essas coisas também não irá te trazer nenhuma transcendência espiritual ou as respostas para sua ansiedade.

Deve ser excelente ter esse privilégio de escolher o que não quer comer e o que não quer comprar. Porque é disso que se trata: o privilégio da escolha. Pra muita gente poder comprar um casaco caro pro filho é uma questão de merecimento e sim, muitas vezes acaba te deixando feliz. É a vida, as coisas são mais simples do que o minimalismo quer pregar.

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