O melhor já passou

Há 20 anos estreava The Sopranos.

Luide
Luide
10 de janeiro de 2019

A oferta é gigantesca. A cada visita no catálogo da Netflix tenho a impressão que dezenas de novas séries me são apresentadas. Os canais convencionais lutam para emplacar seus próprios serviços de streaming e consequentemente aumentam sua produção. Todo mundo tem uma dúzia de séries pra indicar nas redes sociais. A todo instante uma nova queridinha do momento surge nos trending topics. É muita coisa. É história. É muito protagonista. E pouquíssimo tempo. E assim como um Tony Soprano contrariado em sua primeira sessão com a Dr. Melfi, sinto que cheguei no final. O melhor já passou.

O público não estava preparado para o que iria acontecer naquele 10 de janeiro de 1999. Talvez nem mesmo a própria HBO, que há algum tempo investia suas forças em se tornar um canal premium, a “tv que não é tv“, mas ainda precisava de algo que desse poder aquela fala. Oz havia estreado um ano antes, mas não foi o suficiente para implodir tudo. Mas naquela noite de 10 de janeiro quando Tony Soprano resolve ir para o divã, a HBO mudaria pra sempre. As séries mudariam pra sempre. A televisão mudaria pra sempre. A cultura pop mudaria pra sempre.

Uma Era de Ouro. A terceira, como classifica Brett Martin em seu livro Homens Difíceis. Aquela consulta teria um legado que pouquíssimas obras conseguiram e conseguirão ter. A obra de David Chase não é apenas um retrato da loucura da virada do século, do homem em luta contra seus demônios e da humanização de seus personagens. É mais do que isso. The Sopranos impôs um novo nível de qualidade em um lugar que até então era visto como um primo pobre e caipira do cinema. Hoje se diz que não existe mais roteirista desempregado nos EUA tamanha a procura por uma nova série de sucesso, seja ela na televisão ou streaming.

E o culpado tem nome.

Mas 20 anos depois não me parece que o legado de Sopranos tenha mesmo se tornado a regra. A qualidade dos episódios, a forma lenta e gradual em trabalhar cada um dos personagens, a aparente falta de uma história central: tudo isso foi esquecido em prol do entretenimento de choque, onde o “gancho” para que o espectador siga grudado no sofá se tornou a principal parte de uma série. A Era de Ouro passou, estamos na Era da Maratona.

O melhor já passou. E isso me deixe inquieto.

Quando assiste Sopranos pela primeira vez me senti tão desnorteado quanto Tony. Vivia um momento estranho e sua frase me afetou. “I’m getting the feeling that I came in at the end. The best is over“. Anos mais tarde nasceria minha filha e a vida me mostrou que não, o melhor não havia passado. Porém ao pensar em uma forma de escrever sobre os 20 anos da série mais importante de todos os tempos, nada me deixou empolgado ou no tesão de falar sobre uma obra prima. A sensação é que existe uma tendência: que Sopranos, Twin Peaks, The Wire, Mad Men e outras obras caiam no esquecimento e deixem de ser parâmetros.

A Terceira Era de Ouro da televisão começou com The Sopranos e acabou quando Breaking Bad estreou. Me sinto velho e exausto pra falar de séries. Mas se o piloto de Sopranos começa com essa mensagem, o final, o maior final de uma série e provavelmente insuperável, tem JourneyDon’t stop believin.

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