O macho no divã

O que aconteceu com os tipos durões?

Luide
Luide
28 de agosto de 2019

É um tanto engraçado como o homem precisa se cerca de determinados símbolos para forçar uma espécie de imagem de “homem macho”. Uma infância infinita, mas ao invés de um boneco ou bola, agora é a vez de ter uma barba gigante, camiseta preta de alguma banda cafona e o culto a cigarros ou álcool (ou ambos). É tanta afetação que páginas que pregam um certo “orgulho hetero” gastam o dia publicando imagens de outros homens que gabaritam na tabelinha da macheza. É engraçado, são crianças deslumbradas, assim como um jovem assistindo Vingadores na tela grande do cinema.

Alguns levam muito a sério esse personagem criado para satisfazer um fetiche pela testosterona. O “ser homem” é um conjunto de regrinhas e firulas, uma espécie de caracterização constante de si mesmo. Será que essa bota é hetero o suficiente pra mim? Claro que tudo isso tem consequências. Ao alimentar essa figura, o homem moderno cada vez mais se prende em uma bolha de auto-adoração e passa a exigir de si mesmo uma postura que talvez nem tenha sido aquela ensinada pelos seus pais.

Não é o caso de Tony Soprano. Criado em um ambiente violento e hostil, foi um processo natural que aquela criança logo fosse inserida no mundo da máfia. Da adolescência a vida adulta, a afetação de macho que o protagonista de The Sopranos carrega é justificada pela sua realidade. Ele precisa ser violento e hostil, caso contrário, não será respeitado. Mas ao contrário do jovem adulto que prova sua macheza chamado mulher de vagabunda na internet, Tony precisa apertar o gatilho. E só quem se desumaniza por completo é capaz disso.

Mas nem mesmo o mais desumano dos humanos resiste tanto tempo interiorizando seus próprios medos e angústias. Tony trava e é assim que a maior série de todos os tempos começa: com um homem desarmado a espera da terapia. E já em suas primeiras palavras para Dra Melfi fica claro que o mafioso também fantasia o ideal masculino ao citar o ator Gary Cooper, o que pra ele, é o tipo durão que está morrendo. O que Tony obviamente não sabe é da quantidade de “durões” que foram vítimas de si mesmo.

Assim, quando o choque com si mesmo acontece (Tony confrontando o próprio Tony), tudo fica mais confuso para o protagonista. O choro ao falar sobre os patos selvagens em sua piscina é um claro exemplo de como ele não sabe lidar com seus próprios sentimentos. O motivo? Ele nunca lidou, foi ensinado a não lidar. Homens são criados assim: para serem um muro de porrada. Se despir dessa caricatura, desse personagem, deixar a cara de bravo de lado e encarar seus próprios demônios precisa de muita, mas muita coragem.

Coisa que a maioria dos machos não tem.

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