O feio não tem conserto

Ele não precisa.

Luide
Luide
21 de março de 2019

Passamos tanto tempo admirando outras pessoas, outras vidas ou conquistas, que corremos o risco de esquecermos das nossas. Você se acha o mais desinteressante entre todos os seres humanos, mesmo que um ou outro amigo tente te dizer o contrário. Não, você não está doente, apenas perdeu o interesse em si mesmo e é por isso que poupa outras pessoas de sua presença. Quando menos percebe, não se lembra da última vez que reservou um dia apenas para se curtir. Ir ao cinema, em um restaurante, correr etc. A rotina é mesmo sua única companhia e fazer as mesmas coisas de forma metódica é uma forma de deixar tudo mais confortável.

Tem coisas que não da pra mudar. Você se convenceu disso. Essa é a sua condição.

Eu até ri nos primeiros minutos de Queer Eye. Homens jovens, bonitos, bem vestidos e educados, indo “salvar” a vida de algum caipira de meia idade solitário. Mais um reality show comum, uma espécie de “dia de princesa” comandado por cinco gays. O que pode ser mais depreciativo e debochado com aqueles que há muito se enxergam apenas como coadjuvantes? Mas pra minha surpresa, pouco depois, senti um nó na garganta e quando menos percebi derramava lágrimas. Mas o que diabos está acontecendo?

Queer Eye é simples em sua proposta, mas absurdo na execução. O que poderia descambar para algo pedante, se torna um exercício inimaginável de empatia. Afinal de contas, o feio não tem conserto, mas quem disse que ele precisa ser consertado? Não é esse o papel desses cinco homens incríveis. Eles não estão ali para arrumar nada nem ninguém. A missão de Queer Eye é de nos lembrar. Nada mais, nada menos (e se possível deixar a sala um pouco mais bonita).

O que eles fazem vai além de um empurrão na auto estima. Convenhamos que isso se tornou um produto de mercado gigantesco e o que não faltam são picaretas transvestidos de “coach” tentando nos colocar pra cima. Aquele tom professoral, mostrando que o sucesso é mais simples do que parece e basta você acreditar. Já Quer Eye escolhe um caminho mais humano e leve, incitando provocações no “patinho feio” da semana, para que ele perceba por si só que não, você não precisa que ninguém te conserte. Você é bom. E precisa se lembrar disso.

As roupas novas, o corte de cabelo, as pequenas lições sobre casa e comida, não passam de um gatilho para ativar aquela velha pessoa que acabou sendo engolida pela insegurança. Você não é o que você veste, mas é inevitável que suas escolhas até mesmo de uma camiseta não acabem refletindo seu estado emocional. Ensinar alguém a combinar uma blusa com uma bermuda é mais do que capricho de moda. É mostrar para quem veste que a imagem que se reflete no espelho é da melhor pessoa do mundo: você.

Era dia em que eu estava vivendo um surto. Me sentia péssimo e comecei a chorar. Sentado, coloquei a cabeça entre as pernas pra tentar abafar o som do choro. De repente sinto duas pequenas mãos no meu ombro. Era minha filha de apenas 2 anos. Ela estava tentando me abraçar. É óbvio que ela não estava fazendo uma grande análise psicológica da situação, apenas sentiu um desejo de abraçar seu pai. Naquele pequeno momento ela me lembrou de quem sou de verdade: uma pessoa especial.

É isso. Queer Eye é isso: um simples gesto para nos lembrar que somos especiais.

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