O episódio que mudou tudo

College: o episódio de Sopranos que mudou pra sempre a TV.

Luide
Luide
4 de setembro de 2019

Em The Boys da Amazon somos apresentados a um time de super heróis de caráter duvidoso e de uma moral um tanto distorcida. Mas se hoje o The Homelander mata toda uma tripulação de inocentes em um acidente aéreo, ninguém mais se choca ou acha isso algo corajoso ou inusitado. Nos últimos anos nos acostumamos com personagens assim conduzindo histórias: maus, desprezíveis e que no fundo amamos odiar.

De Walter White a Don Draper, os chamados “homens difíceis” dominaram o protagonismo dos dramas nas últimas duas décadas. Mas tudo começou quando um mafioso foi pro divã.

Acontece que nos primeiros episódios, Sopranos era apenas uma série de mafiosos ao estilo que todos nós já conhecíamos. Aqueles personagens, envolvidos em um ambiente hostil, agiam de acordo com a violência que lhes era rotineira. Mafioso matava mafioso e tudo bem, nenhum inocente morreria no processo. Apesar de a imoralidade que era exibida, Tony Soprano ainda evocada ícones dos filmes de máfia, como Don Corleone ou Henry Hill. Mas tudo mudaria quando College foi ao ar.

No quinto episódio da primeira temporada é que Sopranos mostra a que veio e porque mudaria pra sempre o jeito de fazer televisão. Era o ponto de virada de Tony Soprano, mostrando que ao contrário do que o público poderia esperar, não se tratava de um homem mal lutando contra homens maus. Ele também tomaria decisões puramente emocionais e faria de tudo pela cosa nostra. Em College tudo parece belo: pai e filha em uma road trip em busca de uma vaga na universidade. Mas é quando ele se afasta do seu lugar seguro, ou seja, Nova Jersey e sua gangue, é que podemos finalmente perceber que Tony Soprano é Tony Soprano em qualquer lugar.

Na viagem ele se depara com um ex-membro da família que há muito foi preso e delatou seus companheiros. Um rato. Agora, livre da prisão, vive uma vida ordinária (ou nem tanto) com esposa e filha pequena. Ao se deparar com ele, Tony precisará tomar uma decisão: honrar a Família matando aquele homem ou fingir que nada aconteceu.

Dizem que David Chase jamais recebeu um não da HBO, apenas um pedido. Na primeira versão do roteiro, o homem que Tony mataria em viagem com sua filha seria alguém normal, fora do mundo da máfia, mas a direção do canal achou melhor existir um contexto. Mesmo assim foi uma decisão corajosa: o protagonista cruel e sem escrúpulos, aquele que o público aceitava com tranquilidade na tela do cinema, mas no conforto do lar somente bons mocinhos, finalmente entrava com os dois pés pela porta da sala.

O mais interessante é a forma como Chase escolhe encerrar esse episódio histórico: ao retornar para casa, Tony e Carmela discutem e a esposa revela saber que ele se trata com uma terapeuta. Uma mulher. Carmela sai da cozinha deixando Tony solitário, que implora pela sua atenção. Ora, o homem que da porta da casa pra fora é um monstro simplesmente de joelhos diante de uma figura feminina. É por isso que College foi o ponto de virada.

O monstro de joelhos

Dali pra frente, o público poderia esperar tudo de Tony Soprano. E o pior: aprenderiam a amá-lo ainda mais. Como? Por que esse fascínio pelo homem mal? Não sabemos, mas algo aconteceu naquela noite de 7 de fevereiro de 1999: a televisão mudou e nunca mais seria a mesma.

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