O bom exemplo acima de tudo

Ordens e filhos.

Luide
Luide
20 de fevereiro de 2019

Por mais que tente forçar, não me vem em mente alguma ordem da minha mãe. Alguma coisa que ela tenha me obrigado a fazer, como se estivéssemos em um quartel onde ela manda, eu obedeço e fim. O que me recordo da minha relação com ela (e até hoje é assim) é que tudo que construímos foi na base do respeito, da confiança e principalmente do exemplo. Para ela mais importante que perder tempo espancando seus filhos ou castigando, era mostrar na prática como a vida funciona.

Tem lições que nós aprendemos na marra. É no erro, na base da tentativa, onde você percebe que talvez pessoas que tenham uma vivência maior possam ter alguma lógica naquilo que dizem. Com minha mãe sempre foi assim. Ela me educou de um modo que nunca precisou erguer sua voz comigo. Em 32 anos de vida, nunca tivemos uma discussão. Não que ela nunca esteve errada, nada disso. Ela é minha mãe, um ser humano tão frágil como qualquer outro, e comete erros e deslizes na mesma frequência que seu filho.

Mas ela nunca se colocou em um pedestal da sabedoria. Guiada pelo amor, suas ações falavam por si só. Um semblante de decepção em seu rosto me atingia com mais força que qualquer chinelada. A forma como ela respirava calmamente, olhando pra baixo, em um claro sinal de reprovação, me fazia questionar minhas atitudes mais do que uma semana sem TV e internet.

Detesto universalizar experiências pessoas. Sei a relação entre mãe e filhos que aconteceu no meu lar não é o padrão. Família é algo complexo, cheio de pequenos detalhes que ninguém de fora consegue entender direito. Muitas vezes nem mesmo quem está dentro. Mas é impossível ignorarmos nossos próprios exemplos na hora de falar sobre qualquer tema. Hoje sou pai e o tempo todo me pego questionando o tipo de relação que terei com minha filha.

Eu mando nos filhos” é uma frase comum de ser ouvida, mas que sempre me causou um pouco de incômodo. Sei lá, essa ideia de “mandar” em outro ser humano é um tanto estranha, então sempre procuro desconstruir o que essas coisas significam e me desapegar de qualquer afetação na hora de educar, já que essa sim é uma palavra forte, complexa e que pode definir os rumos da vida de um ser humano em formação.

Educar minha filha é de longe o maior desafio que chegou até mim. E confesso que não há um só dia que não me pego pensando se minhas atitudes correspondem com aquilo que quero minha filha tenha como bom exemplo. Minhas escolhas no trabalho, na forma como me relaciono com outras pessoas, meus momentos de excessos, de raiva, minhas explosões. A todo momento isso me envolve em um redemoinho de sensações e pensamentos.

No fundo me vejo seguindo os passos de minha mãe. O amor sempre como foco, o exemplo como regra. Que minha filha um dia sinta por mim o mesmo orgulho e respeito que sinto pela sua avó. Que eu seja seu porto seguro, aquela muralha que parece indestrutível (mas é frágil como um muro de barro). Que seus olhos brilhem de orgulho quando me vêem e seu coração chore de saudade que estivermos longe um do outro.

Eu não mando na minha filha. Mas eu amo. Muito.

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