Os nossos “Waldos” são tão parecidos quanto o de Black Mirror

The Waldo Moment e o político personagem

Luide
Luide
19 de maio de 2016

Com duas temporadas e um especial de natal, Black Mirror é uma obra prima da televisão com apenas 7 episódios em seu currículo. Desses, 6 foram escritos pelo seu criador Charlie Brooker, que mostra que a série está longe de ser apenas um balcão de histórias, mas sim um verdadeiro ensaio sobre humanidade.

É bem comum a maioria da pessoas olharem Black Mirror como puro entretenimento, sem muito o que pensar assim que os créditos sobem. Porém o que torna essa nova aquisição Netflix a melhor série em atividade é justamente o que vem a seguir. O que esse cara pedalando significa ou porque as pessoas estão filmando essa mulher que está prestes a ser morta? Ou esse porco… poxa, que incômoda essa cena.

Do voyeurismo ao processo de luto, Black Mirror procura tratar os temas de seus episódios como Cavalos de Troia. Há sempre algo escondido lá dentro, basta prestar atenção. Porém um episódio em especial é o mais claro possível em sua proposta. Esse é The Waldo Moment, o terceiro da segunda temporada.

Longe de interpretações como Fifteen Million Merits, The Waldo Moment trata de um assunto pertinente para nosso atual momento enquanto sociedade: o político personagem. Com uma abordam direta e bem ilustrada, Black Mirror mostra como o espetáculo midiático transforma seres boçais em esperança de uma nação, que na maioria das vezes acontece justamente por esses personagens irem contra essa idade que temos do político clássico: mentiroso, corrupto, com a boca recheada de palavras bonitas e difíceis.

No papel desse personagem que irá encantar a todos está Waldo, o mascote virtual de um programa de tv. Waldo é escrachado, fala o linguajar popular, diz palavrões e não poupa ninguém de sua acidez. É o velho discurso já mostrado em Fifteen Million Merits, aquele que diz o óbvio, mas surge como uma espécie de Messias.

Mas The Waldo Moment fala muito do eleitor. A crescente onda de adoração é motivada por uma crise moral que ronda todos os políticos, então Waldo surge exatamente como esse verdadeiro representante do povo, afinal ao mesmo tempo que ele não existe, ainda é mais real do que todos seus adversários.

Waldo: poucas respostas, mas muito entretenimento

O clamor popular vai tornando Waldo em uma espécie de popstar e seu nome acaba virando até mesmo produtos de merchandising. As pessoas não olham mais para Waldo como um representante capaz de mudar a situação do país, mas sim como um ídolo, alguém que diz “umas verdades“. E ao colocar Waldo nessa posição, o personagem ganha uma blindagem como ninguém.

É defendido com unhas e dentes, suas escolhas são as corretas e quem discorde está errado. Afinal, Waldo não fornece política, mas sim entretenimento e espetáculo. Ver Waldo em um debate político é sinal de diversão, afinal, no fundo, todos estão desacreditados com a política e sabe que Waldo não irá resolver nada.

Esse fato é real. Waldo não irá mudar nada porque não existe, e qualquer um pode ser Waldo. Quando o “novo Waldo” pede aos seus eleitores fãs que ataquem o antigo, a mensagem que fica é a que no palco da política espetáculo, o político personagem é substituível. Caso você não siga essa agenda, outro tomará seu lugar.

O personagem não diz o que é necessário, ele diz o que você quer ouvir. Ele escreve o que você quer ler. E nossos Waldos sabem disso. Eles sabem que mais do que politica, nós queremos entretenimento. Nós queremos rir, criar memes, fazer montagens, ofender o adversário. E caso ele não consiga suprir nossas necessidades não tem problemas, qualquer um pode ser Waldo.

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