Nós sofremos

E que todo universo saiba disso.

Luide
Luide
21 de janeiro de 2019

Nós vivemos com apenas uma certeza: iremos morrer. Mas diante do inevitável, nossa única torcida é para que a morte siga uma ordem natural. Que os pais morram antes dos filhos. Que os filhos enterrem seus pais. Diante disso é possível colher o legado daqueles que já partiram e deixaram algo de valor em sua passagem pela Terra. Mas quando a lógica se inverte a crueldade disso oblitera qualquer ser humano. É difícil para alguém que passou por algo assim tentar por em palavras a dor dessa tragédia. E se a vida é trágica por essência, de um pai que enterra um filho é ainda pior.

Da lua, Neil Armstrong contemplou toda essa inquietação humana por um ângulo inédito. Há 384 mil quilômetros de distância da Terra, o primeiro homem a tocar em um corpo celeste além do nosso próprio planeta se lembrou daquilo que nos torna humano. No silêncio absoluto em meio ao completo nada o astronauta chorou. Em um plano inédito de existência, onde nossa imensa casa se torna apenas um pequeno e pálido ponto azul, ele chorou. Porque é só isso que resta quando nada mais existe ao nosso redor.

O Primeiro Homem é um trabalho inacreditável de Damien Chazelle. Trata-se de uma história já contata dezenas de vezes e que iremos ouvi-la ainda mais em 2019, ano que a chegada do homem a Lua completa sua primeira metade de século. O inacreditável da visão de Chazelle é como algo tão magnífico, tão surreal para os humanos da década de 60, também se torna mágico novamente para essa sociedade cínica que vivemos. Ou na verdade sou eu quem se tornou um cínico desgraçado que não consegue se emocionar ao ver a Lua brilhando em uma noite de céu claro.

A Lua é mágica. Lá está ela, imponente, ocupando seu lugar de direto no céu. O filme se lembra dela o tempo todo. E precisou de um filme para que eu também me lembra-se. Em O Primeiro Homem temos a beleza da conquista, o deslumbramento diante do impossível e a emoção de nos sentirmos ignorantes. É isso que torna o trabalho do diretor oscarizado por La La Land especial. Um belíssimo presente para os 50 anos do “grande salto para a humanidade”. E não é só isso.

Foi Neil Armstrong quem deu o pequeno passo. E por isso não poderia ser diminuído em um filme sobre essa conquista. O roteiro de Josh Singer mira no homem em luto pela perda da filha. No homem que sofre, que tem medo e que perdeu parte da alma. O primeiro homem a caminhar na Lua fez isso com o coração quebrado. Que amostra mais perfeita da humanidade nesse primeiro contato com o Universo lá fora…

Na belíssima cena desse encontro, o astronauta tem um momento a sós consigo mesmo. Em suas mãos uma lembrança da filha. Ali, onde o tempo parece não existir e até uma simples pegada ficará eternizada, ele deixa aquela pulseira em uma cratera lunar. Ali ela existirá para sempre. Um símbolo do que é a humanidade para caso exista alguém lá fora: nós sofremos.

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