Não, a nossa geração não é melhor que a “geração Nutella”

Mas eu quero que a geração da minha filha seja melhor que a minha.

Luide
Luide
12 de dezembro de 2017

Era uma tarde sábado e eu estava em um bar com amigos de infância, hoje todos na casa dos 30, quando alguns deles começam a falar sobre remédios para dormir. Me assustei. Todos moram em uma cidade de 2 mil habitantes, trabalham a menos de 5 minutos de casa, vivem uma tranquilidade que o morador de São Paulo, por exemplo, não faz ideia do que seja. Mas o susto logo passou e deu lugar a realidade: a conta finalmente chegou para uma geração que nunca refletiu sobre saúde mental.

Surtos de ansiedade, pessoas depressivas que não entendem a doença ou simplesmente traumas carregados ao longo da vida. A minha geração, aquela que nasceu nos ano 80 e 90, se orgulha de ser a “última geração raiz”, onde apanhar do pai é motivo de orgulho e trabalhar aos 10 anos de idade é uma conquista. Um orgulho de aos 16 anos precisar decidir seu futuro para toda a vida, e lidar com as frustrações caso não consiga trilhar o caminho de “sucesso” traçado pelos pais desde que ele nasceu.

Depois de perceber que cada vez mais esses amigos de infância precisam de remédio para conseguir pegar no sono, voltei para casa e olhei para minha filha de 1 ano e 7 meses. Ela brincava, mexia nas coisas, corrida atrás da vó. Tecnicamente, ela tem mais 15 anos de tranquilidade antes de estar diante de uma prova que dirá se ela merece ou não cursar uma faculdade. Antes de decidir o que terá que trabalhar até o último suspiro de vida.

Não quero esse tipo de pressão.

Agora, experimenta dizer isso em voz alta, a primeira resposta será: “geração Nutella não aguenta pressão“. Ainda bem que ela é dessa tal de geração Nutella. Se uma geração Nutella implica em uma próxima geração sem adultos frustrados, ansiosos e infelizes, acredito que tem tudo pra dar certo. Criar filho não é abrir poupança, não é depositar neles nossas vontades próprias. É criar um ser humano que em breve estará inserido em sociedade. É lutar para que esse ser humano não pratique injustiças e também se levante contra elas. Que esse adulto não carregue os preconceitos dos pais.

Ainda bem que minha filha é da geração que usa menos drogas, gasta menos dinheiro em baladas e está mais preocupada com a saúde. Uma geração que não encara o trabalho como um castigo e abre seu leque de possibilidades. Uma geração que está mais aberta ao diálogo e a inclusão. A molecada tem um mundo pela frente e nós passamos tempo demais comparando qual infância foi mais proveitosa.

Esse papo das coisas um dia terem sido melhores é conversa de adulto nostálgico. O Merthiolate não precisa arder pra sempre, a ciência está aí pra isso. A minha geração ainda precisa lidar com seus próprios traumas e cicatrizes antes de apontar o dedo para a próxima.

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