Não existe justificativa

O abandono em Ad Astra.

Luide
Luide
2 de outubro de 2019

Ao pousar na Lua, Roy, o personagem de Brad Pitt em Ad Astra, pergunta o que seu pai acharia do lugar: mesmo saindo da Terra, as pessoas ainda comem nas mesmas redes de fast food e enfrentam as mesmas burocracias. Não mudou nada. Na Terra ou em nosso satélite natural, as coisas seguem do mesmo jeito. Não é mais tão extraordinário assim deixar o nosso planeta.

Mas não é só isso que o futuro de Ad Astra ainda carrega do nosso presente. O homem ainda não aprendeu a lidar com o abandono, no caso de Roy, o abandono do próprio pai. É difícil aceitar que nos deixaram, ainda quando esse alguém é tão próximo e amado. Uma criança que cresceu sem a presença do pai: no futuro esse problema pode ser menor? Não mesmo.

Roy se vê solitário. Introspectivo, calado e cheio de protocolos a serem cumpridos. É um astronauta nato, nasceu para contemplar calado a imensidão do espaço. No fim das contas, quem foi ao cinema esperando uma ficção científica aos moldes de 2001 se frustrou. Ad Astra está, devido as proporções, mais para um Interstellar ao contrário: enquanto no filme do Nolan temos um pai que se joga em um Buraco Negro para salvar a filha, aqui temos um filho cruzando o Sistema Solar para salvar o próprio pai.

É a inversão da coisa, o não natural: filho nenhum deveria se sacrificar, isso é dever dos pais.

Mas aqui temos alguém impedido de seguir em frente. E não adianta olhar para as estrelas enquanto não nos resolvemos aqui na Terra. É engraçado que, no fim das contas, tanto faz se o pai resolveu ir para Netuno ou outro Estado: a dor do abandono é a mesma, e em um país como o Brasil, a paternidade ainda está fortemente atrelada a essa palavra: abandono.

Pelas estatísticas, é possível que muitos que estão lendo esse texto saibam bem o que estou falando. Mais de 5 milhões de crianças sequer tem o nome do pai na certidão de nascimento. É uma epidemia que nem mesmo o avanço da tecnologia curou em Ad Astra. Mas se o conflito com aquele que nos deixa é tão doloroso, porque é tão necessário? O Fantástico resgatou uma de suas séries mais melancólicas: Quem É Meu Pai? mostra a procura de jovens pelo seu progenitor.

O momento em que, diante de um juiz especial, eles descobrem se aquele homem ao seu lado deles é ou não metade responsável pela sua existência. É tão tenso, difícil e cruel. Por que pais se privam do sentimento que é estar ao lado de seus filhos? Por que? Não faz sentido. Não existe justificativa. Nem mesmo se sua missão seja descobrir vida inteligente em outra planeta ou desbravar o Sistema Solar.

O universo pode ser mágico, incrível, misterioso. Mas ainda assim, perto do abraço de um filho, não passa de uma bobagem.

 

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