A série mais experimental da tv, Mr. Robot faz história a cada novo episódio

Um episódio que é uma obra de arte

Luide
Luide
12 de agosto de 2016

As principais referências de séries que temos das décadas de 80 e 90 são de sitcoms. Bem antes de Sopranos mudar a maneira de se fazer tv, comédias prontas dominavam a programação e basicamente o que chegava até nós eram os famosos “entalados americanos“, onde famílias típicas viviam sua rotina na mais pura alegria, com uma platéia pronta para rir das mais diversas situações.

Era assim que a vida do homem comum era ilustrava na tv. Não havia espaço para urgências, gravidade ou tragédias. Tudo era resolvido até o fim do episódio. Um mundo perfeito sem problemas, lutos, vícios e medo, ninguém precisava ter mais do que uma ou duas camadas de personalidade, era tudo perfeito. E ainda existiam os aplausos, risos e surpresas da platéia.

É o mundo e a vida que Elliot nunca teve. Desde pequeno teve que lidar com a agressividade da mãe e depois a morte do pai. Passou grande parte da vida sozinho, aprendendo que o mundo não é um cenário fixo de sitcom, com uma ou duas locações, e se existe uma platéia nos observando, ela não está ali para rir, mas sim vigiar, julgar e punir. Mr. Robot teve aquele que seja seu episódio mais brilhante em toda a série, o que já é suficiente para transformar esse segundo ano simplesmente na melhor série da televisão em 2016.

Coragem e experimentalismo é o que estamos vendo em Mr. Robot. Sam Esmail é o showrunner mais disposto a fazer televisão na atualidade, é o cara que ousa, faz o que ninguém quer fazer, desafia o espectador, o convida pra assistir uma obra que vai além do plot principal. É qualidade. É usar todos os artifícios disponíveis pra fazer um produto. É emocionante ver isso acontecendo em pleno 2016.

Transformar os minutos iniciais de eps2.4_m4ster-s1ave.aes em uma paródia sádica de sitcoms foi uma decisão surpreendente e perfeita. Mostrar o quão perturbada e quebrada foi -e ainda é- a relação familiar de Elliot é primordial para lembrar o espectador o que exatamente ele está assistindo. Esse garoto dos computadores, que tenta hackear até o FBI é só um garoto. Um garoto com problemas, assim como eu e você, mais grave ou menos graves, mas ainda assim um garoto com problemas.

E problemas que não são fáceis de esquecer. Perdi meu pai em 2000 e não foi simples deixar de lado essa dor. Foi sim uma morte inesperada, mas como a relação com minha mãe é a melhor possível, superei o luto, entendi que precisava seguir em frente. Hoje estou aqui, passando adiante a memória do meu falecido pai através da Alice, minha filha. Mas Elliot não. Ele não consegue.

eps2.4_m4ster-s1ave.aes (S02E06)

Sam Esmail ilustra toda a dor e carência do protagonista nesses minutos iniciais, brincando com a vida perfeita de uma comédia. A platéia de Elliot somos nós, que não nos importamos com seu lado humano e cobramos que a série o coloque diante de um computador o tempo todo. Você é um hacker! Não é uma pessoa! Vá destruir a E. Corp, ninguém se importa com seu pai!

Que soco no estômago. Que porrada. E como se não fosse o suficiente, Mr. Robot ainda nos privilegia com uma sequência tensa envolvendo Darlene e Angela. Sam Esmail sabe como trabalhar cada momento com personalidade. É hora de filosofar? Vamos fazer direito. É hora de criar um momento de tensão? Eis me aqui. Gênio. Sim, isso mesmo, estou usando essa palavra.

Mr. Robot entregou o episódio mais poderoso de sua história. O episódio que faltava pra essa série ganhar de vez seu espaço na história da televisão.

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