Minha filha está viciada em Baby Shark

DO DO DO DO DO DO DO!

Luide
Luide
29 de agosto de 2018

Antes da Alice nascer eu era desses pais com discurso afiado. Tinha desenhando na mente como seria a criação perfeita e incrível que ela teria. Dois anos depois vejo que muito daquilo que sonhei bateu de frente com a rotina e acabou indo por água abaixo. Não entenda isso como falta de cuidado, mas sim que muito daquilo que imaginava era puro romantismo. Exemplo: antes da paternidade achava um absurdo que pais deixassem seus filhos pequenos assistirem desenhos ao invés de brincarem com eles. Ou em restaurantes quando as crianças ficavam no ipad para os pais comerem.

Aquilo era inaceitável, oras, filhos são uma dádiva dos céus, porque eu iria abrir mão de brincar com eles? Até entender que isso é impossível e não tem nada de mal seu filho assistir um desenho infantil, isso me garantiu algum peso na consciência. A Alice, assim como toda criança, adora ver Galinha Pintadinha e afins, assim como também adora brincar, correr, mexer nas gavetas e etc. Como toda criança. O meu papel é dosar o tempo que ela passa na frente da TV, desde que não seja seu principal entretenimento, tá tudo bem.

E com isso vem algo extremamente importante em época onde o entretenimento infantil é tão vasto e de fácil acesso: a vigilância dos pais. Tanto eu quanto a Camila monitoramos o que a Alice assiste. Netflix e PlayKids são prioridades, afinal de contas, ela não precisa ser impactada por esse modelo de negócio covarde onde empresas de brinquedos financiam canais infantis: desde 2016 o MPF está na cola do Google por permitir que esse tipo de publicidade velada aconteça em sua rede social.

Mas mesmo com esse risco, é possível, com supervisão, permitir que ela assista ao Youtube e não se depare com adultos jogando Minecraft e falando palavrões. Basta acompanhar. E nessas incursões da Alice pelo Youtube, acabo descobrindo junto com ela algumas preciosidades desse universo infantil. O mais engraçado nessa história é perceber que não estamos sozinhos e que esses fenômenos dominam inclusive o território brasileiro.

Um dos principais canais em atividade e com maior potencial viral entre o público infantil é o ABCKids-TV, que hoje conta com mais de 18 milhões de assinantes e possui vídeos com mais de meio milhão de visualizações. Segundo o site Social Blade, é um dos canais que mais crescem e ficou no topo dos mais vistos do Youtube em junho e julho. É um sucesso porque se apoia em uma fórmula bastante simples e que também funciona com canais em português: cantigas de roda.

De Galinha Pintadinha ao Bob Zoom, as cantigas que embalaram não só a minha infância, mas também a de minha mãe, ganham cores e animações que não precisam ser um primor em técnica, bastam apenas conduzir a atenção da criança. Nada muito psicodélico e rebuscado. Essas cantingas possuem rimas fáceis e letras curtas, o que permite aos pequenos decorar de forma rápida e com isso passarem o dia cantarolando pela casa.

A Alice passou por várias fazes (Xuxa, Patati Patatá, Mônica Toy…) e agora está presa no looping da ABCKids e seus sucessos (que na verdade são sucessos em todos os canais) “Baby Shark“, “Johny Johny, Yes Papa” e “Finger Family“. É mais ou menos o que acontece quando o twitter se apaixona por uma série: não importa o assunto, dão um jeito de encaixar Stranger Things. Com a Alice é isso: não importa o momento, ela da um jeito de cantar BABY SHARK DO DO DO DO DO DO

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