Mindhunter não parece uma série da Netflix

Uma série dramática que se destaca das outras produções do serviço de streaming. Ainda bem.

Luide
Luide
25 de outubro de 2017

A Netflix planeja investir US$ 7 bilhões em conteúdo original em 2018, tudo focado em séries. O que começou como um experimento lá em 2012, se tornou o carro chefe do serviço de streaming e sua principal frente para conseguir novos assinantes e fidelizar os antigos. “Uma série original Netflix” é um selo que chama atenção, mas se antes ele carregava uma certeza de qualidade, a quantidade exaustiva de produções disponíveis quase semanalmente impregnou um certo ar de desconfiança.

Se a HBO tem seu padrão ao criar séries (sexo, violência, dramas densos), a Netflix descobriu o seu: temas atuais/tabus debatidos em obras com muita diversidade. Seja Sense8 ou 13 Reasons Why. Apesar de ser uma preocupação legítima, as séries da Netflix deixaram de surpreender. Mas ainda bem que veio Mindhunter e provou que ainda da pra fazer coisas diferentes dentro da plataforma.

A série escrita por Joe Penhall e produzida por David Fincher (que dirige 4 dos 10 episódios da primeira temporada) dá uma sensação de frescor nas produções originais da Netflix. Sua narrativa e forma lembra produções do FX ou até mesmo alguma mini-série da HBO. Talvez o desenrolar de sua história e o modo como os protagonistas são retratados é o que da essa sensação. É um clima diferente que torna Mindhunter a melhor série dramática do serviço de streaming em 2017.

Mindhunter poderia facilmente cair no limbo da mesmice já que essa dinâmica entre dois agentes investigantes crimes já está batida. Ao menos que um dos personagens roube a cena pra si (como no caso de Cole em True Detective) dificilmente seremos apresentados a uma história nunca antes contada. Mas Joe Penhall consegue dar particularidades a Holden Ford e Bill Tench, e o modo como trabalha a relação entre eles nos conecta facilmente aquele mundo. Enquanto Holden é o sujeito que reage diante do novo e sua curiosidade é fundamental para o andamento da trama, Bill é o agente cansado, cujos dramas familiares se misturam com seu trabalho. É a velha história do homem perturbado que precisa conciliar a vida pessoal com a profissional.

Além disso, Mindhunter aposta alto ao criar uma espécie de conexão entre os agentes e os assassinos, já que para entendê-los é preciso ouvi-los. E francamente, ninguém está disposto a ouvir alguém que estuprou a cabeça decepada da própria mãe. Mas a importância desse estudo é que novos casos assim sejam prevenidos. Como se não fosse o suficiente, a adição de Wendy Carr a partir do terceiro episódio, deixa tudo ainda mais interessante. Um ótimo trio que se forma. Mas tem mais.

Casos procedurais como acontece no quinto episódio acabam se tornando importantes para o contexto geral da série. É como se as técnicas que os agentes aprendem na teoria, entrevistando os assassinos, pudessem ser testadas em tempo real. E é justamente isso que não coloca Mindhunter na armadilha do procedural, onde as ações dos personagens não causam efeitos nos episódios seguintes. Tudo é muito bem encaixado.

É de fato uma ótima surpresa em um ano recheado de ótimas séries. A Netflix respira.

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