Mad Men: esqueça a publicidade

Esqueça esse papo que Mad Men é sobre publicidade e publicitários

Luide
Luide
24 de agosto de 2015

Uma das grandes jogadas da nova era de boas produções para a TV é dar ao espectador uma desculpa para ele começar a acompanhar uma série. Sopranos é sobre máfia, Breaking Bad sobre tráfico de drogas, The Wire é sobre um departamento policial e por aí vai. Porém bastam alguns episódios para ele perceber que caiu em uma armadilha e o que está sendo exibido ali é muito mais do que simples mafiosos socando a cara de alguém ou um professor de química que derrete corpos em ácido.

Ainda assim é fácil você convencer aquele seu amigo a ver uma série sobre “um grupo de motoqueiros chamado Sons Of Anarchy“. Agora tente imaginar como é pra alguém que nunca ouviu falar de Mad Men se interessar pela série que fala sobre “a publicidade nos anos 60“. Eu fui um desses que torceu o nariz durante muito tempo, até arrisquei a ver alguns episódios, mas logo desisti. Bem, eu comecei a ver Mad Men pelos motivos errados e não quero que isso aconteça com vocês, queridos amigos do fórum.

É claro que a publicidade, as agências e a vida banhada a coquetéis e defumada por cigarros dos publicitários está ali, mas Med Man é um retrato brilhante de uma época que muitas vezes parece ter sobrevivido a algumas mudanças. Através de um roteiro espetacular, ambientação única e um elenco desses que você não consegue encontrar um favorito, Mad Men te convida pra ouvir histórias de pessoas. Só isso, afinal, toda produção minimamente decente tem como seu forte as histórias que envolvem seus personagens.

Antes de ganhar vida na AMC (e revolucionar o canal que um dia traria ao mundo Breaking Bad), Mad Men passou um bom tempo dentro de uma pasta, perambulando de estúdio em estúdio, sendo carregada por Matthew Weiner, seu criador e realizador.

A jornada de Weiner para de criar Don Draper, um dos mais instigantes personagens já feitos pra tv, começou um pouco antes na HBO, ao lado de David Chase. Weiner trabalhou como roteirista de Sopranos e até se tornou produtor executivo. Essa experiência foi vital para que Mad Men ganhasse corpo e não da pra imaginar a agência Sterling Cooper funcionando sem a influência de um certo gordinho mafioso.

Mad Men é uma dessas séries que tem seu próprio tempo, tanto que os mais ansiosos para ver as grandes sacadas de Don podem se decepcionar e desistir rápido. Mas aqueles que se interessam pela análise e leitura de personagens, vão encontrar um verdadeiro banquete. E o que não falta são opções.

A começar pelo próprio protagonista, Don Drapper, um homem que faz jus a essa era de anti heróis que começou lá em 1999. Enquanto Tony tinha seus excessos e Walter White seu ego destrutivo, Don permanece calado e nos deixando a todo tempo confusos em relação a sua próxima jogada. Ou até mesmo sua próxima frase. É delicioso acompanhar sua jornada pessoal em busca de sabe-se lá o que.

E assim como Weiner um dia foi pupilo de David Chase, a série nos apresenta Peggy Olson, a secretária de Don Draper que começa a pequena escalada dentro de agência, mostrando que o machismo não se limita ao assédio a novas secretárias. Em menos de duas temporadas Peggy já se mostra um dos personagens mais bem escritos da história e sua importância dentro e fora do contexto da série é incalculável.

Se em 2015 a discussão sobre salários iguais para homens e mulheres rouba a cena na entrega do Oscar, no começo da década de 60 isso não era nem cogitado. Peggy sofre com a falta de reconhecimento, confiança e tudo que você possa imaginar.

A série ilustra em pequenos momentos essa cultura machista que rebaixa a mulher mesmo quando é dela as melhores ideias. Um exemplo é quando ela sozinha cria e apresenta uma nova campanha e pouco depois precisa ouvir bronca do técnico da máquina de xerox.

Don e Peggy são apenas o vagão condutor de uma locomotiva de excelentes personagens. O frustrado Pete Campbell, a solitária Betty Draper, a encantadora Joan Holloway… todos vagões de um trem que vai cruzar uma época que às vezes assusta pelas diferenças, mas também ainda assombra nossos tempos.

Você ri de vários absurdos. Por exemplo, como achar normal quando o aviso de “Proibido Fumar” no avião se apaga e Don acende seu cigarro? Mas também outros choques de realidade passam despercebidos já que eles ainda estão cravados em nossa sociedade, como os poucos negros que aparecem na série não passarem de garçons, porteiros e empregadas domésticas.

Mad Men é uma viagem de volta há 50 anos no calendário. Roupas diferentes, médicos que fumam, televisão preto e branco. São tantas coisas que a humanidade deixou pra trás. O difícil é aceitar que certas coisas ainda continuam. Esqueça a publicidade, você pode até ser convencido por Don Draper que fumar Lucky Strike é maneiro demais, mas acredite, Mad Men é muito, mas muito mais do que isso.

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