Pelo menos Luke Cage tentou fazer diferente

Série tem o mérito de partir pra algo diferente de Demolidor e Jessica Jones, mas...

Luide
Luide
4 de outubro de 2016

Eu sei que é pesado dizer isso, mas será a The Wire da Marvel” foram as palavras de Cheo Hodari Coker, showrunner de Luke Cage, para a revista Entertainment Weekly. Pra você que não conhece The Wire e não entende o “peso” dessa declaração, vou tentar a difícil tarefa que é resumir uma das maiores obras da televisão.:

Imagine uma série sem protagonista, onde a cidade (no caso Baltimore) é o principal personagem e todos os outros são periféricos. Imagine uma série que se propõe a contar a história dessa cidade, e como a violência, tráfico de drogas e corrupção pode levar uma sociedade a falência. Agora imagine uma série que da voz a todos para contar essa história, do pivete traficante da esquina ao prefeito. Do detetive a professora.

The Wire é uma das obras mais significativas de todos os tempos por ser aquela que mais abraçou o realismo. Pôs os pés no chão e contou sua história com paciência, explorou cada beco, cada departamento de polícia, tudo pra expor os problemas de uma cidade. É claro que Cheo Hodari Coker não seria tão inconsequente de comparar Luke Cage diretamente com The Wire, mas em partes, da pra dizer que ele tentou fazer algo parecido dentro dos limites que uma série com super herói tem.

Luke Cage é de fato bastante diferente de Demolidor e Jessica Jones, mas não significa que seja a melhor. Na realidade, é a mais problemática entre as três. Vezes por culpa do próprio personagem, vezes por conta de um roteiro que arranha a superfície essa proposta de “explorar o Harlem“. Em seus quatro primeiro episódios, a série abre sua teia para narrar a jornada de seu herói. A corrupção se fortificando, o choque de interesse entre gangues, o trabalhador que paga o preço, os jovens que são tentados por um caminho que parece glamouroso, a polícia sempre de mãos atadas. E claro, no meio disso tudo, um povo tentando sobreviver.

O problema de Luke Cage é tentar cruzar essa complexidade com o personagem que não responde ao chamado. O típico herói problemático que recusa aceitar seu destino, Cage é o meio termo entre o Demolidor que se entrega a violência e ao vigilantismo, e Jessica Jones que por seus traumas do passado, reluta em assumir algum papel “messiânico“. Mike Colter infelizmente não consegue dar o peso dramático que o personagem pede, e sua face sempre melancólica é cansativa.

É estranho Luke Cage não funcionar em seus primeiros episódios. O elenco é bastante competente, e a série abriu um mar de possibilidades narrativas. Aparentemente o mais poderoso entre os já apresentados heróis Marvel/Netflix, seria desperdício colocar Cage enfrentando bandidinho de rua. Era preciso algo maior, invisível, que ele não pudesse destruir com um soco. E esse inimigo tem um nome: o crime. E não falo apenas do crime que Cottonmouth pratica, mas sim de todos aqueles que corrompe uma cidade. Bons exemplos são a vereadora Mariah Dillard e o detetive Rafael Scarfe.

Luke Cage ao menos teve a coragem de fazer diferente, mas ainda está bastante preso a algumas convenções e formatos desnecessários. O primeiro é o padrão de 13 episódios por temporada que só prejudica as séries. A barriga criada, histórias esticadas que muitas vezes beira o insuportável. Outra questão, mas dai não chega a ser um problema já que se trata de algo bastante pessoal, é essa necessidade de uma série pra televisão fazer parte do mesmo universo de filmes para o cinema. Entendo quem gosta, mas sigo achando a pior ideia dessa empreitada da Marvel dentro da Netflix.

Ironicamente Luke Cage já sofre das mesmas críticas que The Wire um dia sofreu. Muitos a consideraram “parada”. O que não é verdade. O problema está longe da lentidão (que não é um defeito). É uma série de herói que tentou ir longe, o que não combina muito já que o pessoal quer mesmo é ver porrada e uniforme colorido.

Review dos 4 primeiros episódios. Temporada completa em breve

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